BRASIL - PORTO ALEGRE: A ESTRADA DE FERRO DO RIACHO - 1899!!!

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BRASIL - PORTO ALEGRE: A ESTRADA DE FERRO DO RIACHO - 1899!!!

Mensagem por Antonio C. Pulsy em Qui Mar 08 2018, 21:23

Compartilho com os colegas, "Brasil - Porto Alegre: A Estrada de Ferro do Riacho - 1899".


                                                 PORTO ALEGRE E A ESTRADA
                                                     DE FERRO DO RIACHO.

No finalzinho de 1899, começou a funcionar em Porto Alegre uma linha férrea, até então a única municipal no Brasil, que servia aos bairros margeados pelo Guaíba. Também conhecida por Estação Ferroviária do Riacho, porque ficava a beira do Arroio Dilúvio, a linha do trem foi muito importante, pois além de transportar passageiros e cargas, constituía um dos melhores passeios turísticos de Porto Alegre. Inicialmente, a linha do trem foi utilizada para transportar os cubos malcheirosos provenientes das casas da cidade, pois como não havia esgotos, tampouco fossas ou sumidouros, a solução encontrada foi o transporte dos excrementos em “cubos”, com uma abertura na parte superior, onde era atarraxada uma tampa para vedação e transporte. Portanto, tinha uma função essencialmente sanitária. O trajeto percorrido por esse material ia até a chamada Ponta do Asseio ou Ponta do Melo, onde num passado não muito distante se localizava o Estaleiro Só, no bairro Cristal. Em tempos mais remotos, esse material viajava até outra ponta, a do Dionísio, no bairro Assunção. Esses cubos, fornecidos pela Intendência Municipal de Porto Alegre, eram colocados sob a tábua de assento dos banheiros da época para serem usados e, depois de cheios, eram recolhidos por um carroção que trocava o cheio por um vazio e encaminhados até a estação de trem mais próxima. Logo que chegava ao seu destino, o conteúdo dos cubos eram descarregados pelos cubeiros, diretamente, no rio. Os mesmos cubos ou cabungos que levavam os dejetos, após serem descarregados, limpos e lavados com creolina, faziam a viagem de volta. O asseio público deixou suas marcas nas tradições da cidade. Como Ponta do Asseio ficou popularmente conhecida a Ponta do Melo, como Lomba do Asseio a ladeira que ligava aquela ponta à avenida Padre Cacique. Cubos e cubeiros ou cabungos e cabungueiros (pessoas que limpavam os cubos ou cabungos) são, ainda hoje, tristemente lembrados. No início do funcionamento do trem para a Zona Sul, a tração era animal. Mais tarde, foi substituída por locomotivas importadas da Alemanha, movidas a vapor produzido pela queima de lenha e, após, por carvão mineral. Assim nos dizia um anúncio de um jornal da época: “Espera-se que até dezembro esteja aberta ao tráfego a estrada de ferro à Ponta do Dionysio, obra contratada pela Intendência Municipal com o Sr. Gaspar Guimarães e o Dr. Luiz Caetano Ferraz. O percurso total da linha é de dez quilômetros, já estando seis com o respectivo leito preparado e os ramais em adiantado preparo. As locomotivas já se acham nesta capital, e, segundo nos informam, denominar-se-ão "Progresso" e "Rosa", nomes escolhidos pelo digno empreiteiro Dr. Luiz Ferraz. Os trilhos estão na cidade de Rio Grande, em viagem para aqui. A plataforma da Estação do Riacho vai muito adiantada, devendo em pouco tempo estar pronta. Teremos, pois, brevemente, uma via-férrea contornando, em grande parte, a belíssima baía do Guaíba“. Em 1900, o trem passou a ser utilizado por passageiros e durou até 1936.  Ficou mais conhecido pela população como o “Trenzinho da Tristeza”. Trafegava lentamente, passando por diversos bairros da Capital, entre eles, o Cristal, a Assunção, a Tristeza, a Vila Conceição e a Pedra Redonda. O início da linha podia ser na Estação da Ponte de Pedra, na Cidade Baixa, ou na Estação Ildefonso Pinto, perto do Mercado Público, no Centro. Durante a semana, o trem tinha dois horários de saída: às 8h e às 16h30min. Nos domingos, quando a procura era maior em função dos banhos no Guaíba e dos piqueniques na praia, saíam em mais horários, um às 10h e outro às 14h, e o preço da passagem era de aproximadamente 400 Réis. Quem utilizava o trenzinho, sentia que era uma viagem segura e tranquila pela baixa velocidade dos vagões. A Maria-Fumaça percorria diversos caminhos e apesar de ser chamado de “O Trem da Merda”, ainda assim, era divertido e bonito o passeio pelas ruas de Porto Alegre. Nos primeiros anos de funcionamento, o trem vinha somente até a Ponta do Dionysio, hoje Vila Assunção. Com o passar dos anos, a via foi estendida até o bairro Tristeza, e, em 1912, até a praia da Pedra Redonda. Esse prolongamento da via só foi possível graças a um empreendimento particular, onde tal empreendimento resultou em um grande desenvolvimento à Zona Sul, transformando-a em área nobre da cidade com suas casas de veraneio, seus hotéis e restaurantes. O bairro Tristeza é um exemplo desse progresso, conforme nos conta Pellin em suas crônicas sobre o antigo arrabalde: “Tristeza progredia, habitada agora pela elite porto-alegrense e por famílias estrangeiras, que vêem nascer a nova praia de frente para o sul, a Pedra Redonda”. Para o trem chegar até a Praia da Pedra Redonda, foi preciso um grande investimento e muitas obras foram feitas envolvendo escavações e explosões no morro, onde hoje se encontra a Vila Conceição. Grande quantidade de pedra e parte da mata foi retirada da região para que a estrada de ferro pudesse ser construída. A obra no morro durou cerca de três anos. Um dos caminhos percorridos pelo trem até chegar a Vila Conceição nos anos de 1920 era um fosso de granito de 800 metros de comprimento por 10 metros de altura e foi escavado desde o início da vila até a beira da praia, criando um grande paredão por onde passava a Maria Fumaça. Algumas pessoas aproveitavam para ir a pé até a praia, utilizando o caminho aberto. Porém, o passeio era muito perigoso, pois, quando o trem se aproximava, as pessoas se espremiam entre as paredes de pedra e a locomotiva. Era uma aventura e tanto, conforme diziam os jovens da época, que se arriscavam para curtir os banhos na praia mais famosa da época. Além dos passageiros que viajavam com seus pacotes e maletas, o trem também transportava pedras da Ponta do Dionisyo (hoje, Clube Veleiros do Sul), para a construção do Cais do Porto. Em 1925,  o então presidente do Estado do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros, decidiu dar início a grande obra no cais. Assim, muita pedra foi levada das pedreiras da Zona Sul ao Centro. Em 1926, fez conexão com a Vila Nova, mesma época da inauguração da Estação Idelfonso Pinto, no centro da cidade, próximo ao Mercado Público. Em 1927, a ferrovia foi arrendada por três anos. Em 1933, foi repassada ao governo do Estado, sendo administrada pela Viação Férrea do Rio Grande do Sul - VFRGS. Em 1936, devido à concorrência dos ônibus, encerrou o transporte de passageiros, mas manteve a linha Vila Nova, prolongada até o Matadouro Modelo, onde hoje encontra-se o Quartel do Exército na Serraria. Em 1941, encerrou definitivamente sua circulação, devido a "Grande Enchente" que alagou Porto Alegre e destruiu a linha férrea. A Ferrovia do Riacho teve um papel social indiscutível, apesar de nunca ter dado lucro financeiro. A última locomotiva que "sobrou", esteve exposta no Parque Farroupilha em 1960, mas foi depredada. Foi enviada para o Parque Saint'Hilaire e após, a VFRGS a cedeu ao Museu do Carvão em Arroio dos Ratos, onde entrou em processo de degradação. Após, foi "passada" para a Prefeitura de Carlos Barbosa, onde desde 2008, está em completo abandono em um desvio da Ferrovia do Vinho.


CARTÃO POSTAL COLORIDO, ESTAÇÃO DO RIACHO, CIDADE BAIXA.


CARTÃO POSTAL COLORIDO, ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DA TRISTEZA.


CARTÃO POSTAL, CORTE PAREDÃO DE ROCHAS NA TRISTEZA.


PASSAGEM MISTA, TREM LEVANDO PASSAGEIROS E CUBOS.


TRAJETO DOS TRENS PARA DESCARGA DOS DESEJOS.


PINTURA TRAPICHE PONTA DO MELO, ONDE SE JOGAVA OS DEJETOS.


CUBO E/OU CABUNGO.


CUBEIRO E/OU CABUNGUEIRO
FAZENDO SEU SERVIÇO.


CARROÇA DE CUBOS E/OU CABUNGOS ATOLADA.


ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DO RIACHO - 1900.


ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DA PRACINHA NA TRISTEZA - 1920.


ESTAÇÃO FERROVIÁRIA IDELFONSO PINTO.


A LOCOMOTIVA DO RIACHO ABANDONADA. ESTA EM CARLOS BARBOSA, ABANDONADA.
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Antonio C. Pulsy

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Re: BRASIL - PORTO ALEGRE: A ESTRADA DE FERRO DO RIACHO - 1899!!!

Mensagem por Fabio Monteiro em Sex Mar 09 2018, 18:29

Ótimo post, Antônio, parabéns! Resta descobrir se a EF do Riacho transportava tb malotes de correio. Sabe-se que existia em Porto Alegre um Agência Fluvial do correio, da qual postarei algum carimbo que adquiri. Esta agência, pelo visto, ficava às margens do Guaíba, mas näo era destinada ao transporte fluvial. Entäo seria possível que transportasse seus malotes por ferrovias ao longo do rio.

Poderias citar tuas fontes bibliográficas? Obrigado e abs do fabio
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Fabio Monteiro

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Re: BRASIL - PORTO ALEGRE: A ESTRADA DE FERRO DO RIACHO - 1899!!!

Mensagem por Antonio C. Pulsy em Sex Mar 09 2018, 20:16

Prezado,

> Blog ZH Zona Sul.

O livro abaixo é o lançamento mais recente sobre a E.F. do Riacho.

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Re: BRASIL - PORTO ALEGRE: A ESTRADA DE FERRO DO RIACHO - 1899!!!

Mensagem por jcirne em Qua Mar 14 2018, 12:50

Gostei muito de ler, obrigado!
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Re: BRASIL - PORTO ALEGRE: A ESTRADA DE FERRO DO RIACHO - 1899!!!

Mensagem por Antonio C. Pulsy em Qua Mar 14 2018, 13:49

Prezado,

agradecido.
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Antonio C. Pulsy

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Re: BRASIL - PORTO ALEGRE: A ESTRADA DE FERRO DO RIACHO - 1899!!!

Mensagem por Fabio Monteiro em Sab Abr 07 2018, 16:15

De passagem por Porto Alegre, descobri que o livro acima foi uma tese de mestrado em arquitetura do autor, André Huyer:

http://www.ufrgs.br/propur/teses_dissertacoes/Andre_Huyer.pdf

No Acervo Benno Mentz, na biblioteca da PUC, pude consultar a Neue Deutsche Zeitung, um dos 3 (!) jornais diários em alemäo que existiam em Porto Alegre, há mais de um século. e encontrei o horário dos trens para a Tristeza em maio de 1907:



De segunda-feira a sábado: saídas do Riacho às 7:15 e às 16:00 hs. Saídas da Tristeza às 8:00 e às 16:45 hs.

Aos domingos: saídas do Riacho às 8:00, 10:00, 14:00 e 16:00 hs. Saídas da Tristeza às 8:45, 10:45, 14:45 e 16:45 hs.

Donde se conclui que cada viagem durava uns 30 minutos. Mas o melhor vem agora:



O mesmo jornal informa que saíam malotes de correio diariamente às 6:00 hs do Riacho à Tristeza. Agora vamos ver quem vai postar o primeiro inteiro postal dessa ferrovia aqui...
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Re: BRASIL - PORTO ALEGRE: A ESTRADA DE FERRO DO RIACHO - 1899!!!

Mensagem por Antonio C. Pulsy em Sab Abr 07 2018, 17:31

Prezado,

agradecido por compartilhar estas informações que poucos conhecem...Será uma "maratona" para localizar/achar uma peça filatélica circulada na "Ferrovia da Merda"...
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Antonio C. Pulsy

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Re: BRASIL - PORTO ALEGRE: A ESTRADA DE FERRO DO RIACHO - 1899!!!

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