Correio fluvial no Pará no séc.XIX

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Correio fluvial no Pará no séc.XIX

Mensagem por Fabio Monteiro em Sab Dez 02 2017, 20:23

Esta semana recebi um selo Cruzeiro tipografado de 100 reis (RHM 78), com um carimbo que até então desconhecia:



Consultando meu alfarrábios, pude constatar, com certeza quase absoluta, que se trata de uma obliteração para o correio fluvial do Pará:



A ilustração acima vem de um artigo sobre os primórdios do correio marítimo e fluvial brasileiro, de Roberto Wildner, publicado na revista Santa Catarina Filatélica no.38, de dezembro de 1987, traduzido para o alemão por Peter Splett e republicado no boletim FB 45 (1999) da ArGe Brasilien, com adendos de Karlheinz Wittig. Infelizmente não disponho de muitas informações sobre o serviço postal naquela época e região, mas talvez alguém aí possa me ajudar.

A existência de Olhos-de-Boi com carimbo de Manaus, numa época anterior à criação da província imperial do Amazonas (1850), comprova a atividade postal oficial entre aquela cidade e Belém, a capital da província do Grão-Pará. Como o único acesso entre Belém e Manaus, naqueles tempos, era por via fluvial, pode-se concluir que o serviço postal cobria também outras povoações onde os vapores ancorassem, ao longo do Amazonas e principais afluentes (Tocantins, Xingu e Tapajós).

A mais antiga lei imperial que regula o transporte fluvial amazônico que encontrei é a de número 586, de 6 de setembro de 1850, um dia depois da criação da província do Amazonas. A proximidade das datas não pode ser obra do acaso, uma vez que foi então criada a Companhia da Navegação e Comércio do Rio Amazonas, e seu mentor era Irineu Evangelista de Souza, o futuro Visconde de Mauá.

Pela Lei 586, o Governo foi autorizado “a estabelecer desde já no Amazonas, e águas do Pará a navegação por vapor, que sirva para correios, transportes, e rebocagem até as províncias vizinhas, e territórios estrangeiros confinantes consignando prestações a quem se propuser a manter a dita navegação, ou por embarcações do Estado”. Além disso, a Companhia deveria transportar gratuitamente as malas do Correio e as correspondências oficiais.

Com o boom da borracha, a partir de 1879, certamente a Companhia do Amazonas cumpriu um papel importante no rápido desenvolvimento econômico ao longo dos rios principais.

Mais tarde, o Guia Postal do Império de 1880 já documentava um transporte regular de malas postais na província do Pará (pp.50-51), onde 6 carteiros e 4 “praticantes” atendiam a 37 agências! Se considerarmos que o serviço ia até o Amazonas, atendendo às cidades de Manaus e Serpa (hoje: Itacoatiara), pode-se ter uma ideia da eficiência dos correios naquelas priscas eras.

Com o advento da República, a economia do Pará ainda tinha o vento em popa pelo menos até 1912, quando o preço da borracha desabou nos mercados internacionais. Por isso acredito que, com um pouco de sorte, vamos encontrar mais alguns exemplos de carimbos fluviais paraenses daquele período entre os foristas. Por favor, postem suas descobertas por aqui!

Fontes: ArGe-Brasilien - FB 45 (99/1)

Guia Postal do Império (1880)

Roberta Kelly Lima de Brito: A introdução da navegação a vapor na Amazônia no século XIX: o processo de formação da Companhia de Navegação e Comércio do Amazonas

http://www.abphe.org.br/uploads/ABPHE%202017/6%20A%20introdu%C3%A7%C3%A3o%20da%20navega%C3%A7%C3%A3o%20a%20vapor%20na%20Amaz%C3%B4nia%20no%20s%C3%A9culo%20XIX%20o%20processo%20de%20forma%C3%A7%C3%A3o%20da%20Companhia%20de%20Navega%C3%A7%C3%A3o%20e%20Com%C3%A9rcio%20do%20Amazonas.pdf

Vitor Marcos Gregório: O progresso a vapor: navegação e desenvolvimento na Amazônia do século XIX

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-63512009000100008
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Re: Correio fluvial no Pará no séc.XIX

Mensagem por Fabio Monteiro em Dom Dez 03 2017, 11:14

Corrigindo: a Companhia de Navegacäo do Amazonas näo pôde participar do ciclo da borracha, porque em 1879 já tinha desaparecido, tendo sido transformada a partir de 1871 na "Amazon Steam Ship Navigation Company Limited", com sede em Londres e um capital de 600 mil libras esterlinas, com Mauá à sua frente "como principal interessado", segundo nos informa o Dr. Almir Chaiban El-Kareh neste paper muito interessante:

http://www.abphe.org.br/arquivos/2003_almir_chaiban_el_kareh_a-companhia-de-navegacao-e-comercio-do-amazonas-e-a-defesa-da-amazonia-brasileira-o-imaginado-grande-banquete-comercial.pdf
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Re: Correio fluvial no Pará no séc.XIX

Mensagem por Julio Mantovani em Ter Dez 12 2017, 21:19

"No começo do seculo XX, Belem mantinha importante movimento fluvial e maritimo. Em 1907, os registros oficiais computavam um total de 25.731 passageiros e 1.789 navios "barra afora", enquanto, para o interior, o movimento total de embarcaçoes era de 4.866 entradas e saidas."

"Em 1883, a Companhia Brasileira de Paquetes a Vapor iniciou a primeira linha regular entre o Rio de Janeiro e Manaus. Em 1890 ja existiam 16 companhias operando nos rios da regiao amazonica, com uma frota de 114 navios a vapor , alem de inumeras embarcaçoes menores."


Boa noite, Fabio.

Estes sao trechos de um livro interessante: "Navios e Portos do Brasil - Nos cartoes postais e albuns de lembrança". De Joao Emilio Gerodetti e Carlos Cornejo.

O livro é de agradavel leitura e muito bem ilustrado. Os autores utilizaram principalmente cartoes postais antigos, e a parte sobre os navios è muito bacana.

Um abraço

Julio
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Re: Correio fluvial no Pará no séc.XIX

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