Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

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Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por Fabio Monteiro em Dom Set 17 2017, 13:02

O colega Alf Dombrowe, da ArGe Brasilien, fez recentemente uma descoberta sensacional: a existência de ângulos retos de alinhamento nas sobrecargas (ou sobrestampas) aplicadas nos últimos selos imperiais para jornais, em 1898-99. Por exemplo, neste RHM 116:


 
Detalhe do canto superior esquerdo:

Dombrowe publicou sua descoberta no Boletim Nr. 81 (1/2017) da ArGe Brasilien. Segundo sua hipótese, esses “cantos” seriam uma ajuda para poder colocar a rama tipográfica com maior exatidão sobre a folha original, a ser sobrestampada.

Se partirmos do pressuposto de que a rama tipográfica tinha um tamanho semelhante ao da folha (de 100 selos!), teríamos 4 selos com ângulos retos por folha, e cada um dos selos apresentaria seu  canto numa posição diferente. Como sou um zero em técnicas de impressão, aqui vão minhas perguntas pra quem disso mais entende (alô, Romeu Natale!):

- A existência dos ângulos de alinhamento seria uma prova de que a sobreestampa em questão foi feita em tipografia? Ou poderia ela também ser feita em litografia?
- Cada selo mede aproximadamente 3 x 3,7 cm. Uma rama tipográfica que abrangesse a folha inteira mediria, portanto, cerca de 30 x 37 cm. É um tamanho plausível?
- Até agora, não se encontraram os ângulos nos selos RHM 114, 115 (aqui é óbvio, por se tratar de um carimbo de borracha), 118, 119 e 120. A se confirmar essa inexistência, poderia isso indicar que esses selos foram impressos noutro lugar?

A última pergunta baseia-se na informação de que tanto a Casa da Moeda como a Casa João Guimarães aplicaram as sobrestampas. Então seria teoricamente possível que uma das casas impressoras utilizasse os ângulos de alinhamento, e a outra não.

Agora um pedido a todos os colegas do fórum: examinem com carinho seus jornais sobrestampados e avisem aqui (se possível, postando a imagem) se descobrirem alguma dessas variedades, ok? Eu mesmo já encontrei 5 delas nos meus alfarrábios (RHM 116, 117, 121, 123 e 124).

Finalmente, aqui vai um vídeo muito informativo sobre a tipografia (em espanhol meio estranho):
https://www.youtube.com/watch?v=IeAg68aRM7g

Mesmo se a máquina em questão seja bem mais moderna do que as utilizadas há mais de 100 anos, imagino que o princípio seja o mesmo.
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Fabio Monteiro

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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por RomeuNatale em Dom Dez 10 2017, 09:22

Bom dia, Fábio.

Não havia percebido este tópico. Vou ler com atenção e ver no que posso contribuir. Se bem que não possuo uma quantidade significativa dos jornais sobrestampados. Mas vou estudar à partir de suas informações e de acordo com as técnicas tipográficas da época.

Abraços,

Romeu Natale
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por Fabio Monteiro em Dom Dez 10 2017, 14:12

Oi Romeu, legal que vc se interessou pelo tema! Vasculhando meus jornais sobreestampados, encontrei quatro selos com ângulos de alinhamento nos cantos:



Da esquerda à direita: um RHM 116a (preto/violeta, com um belo carimbo ferroviário “Rio Grande a Bagé”, além de um suave carimbo de Pelotas), um RHM 121, um RHM 123 e um RHM 124. Aqui tb os detalhes. Primeiro pros 116a e 121:

 
 
O ângulo do 121 tá bem curtinho, mas ainda perfeitamente visível. Agora pros 123 e 124:

 
 
Espero que estas imagens possam ajudar algo. Abs do fabio
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por Fabio Monteiro em Dom Dez 10 2017, 14:26

Ups, eram cinco selos, tinha esquecido já do RHM 117. Ói ele aqui:

 
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por FRITZEN em Seg Dez 11 2017, 16:53

Nunca me detive a estudar essa emissão, nem as sobrecargas.

De modo geral, as sobrecargas são TIPOGRAFADAS.

Assim que tiver condições, vou verificar.
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por RomeuNatale em Ter Dez 12 2017, 03:03

Fábio, a impressão tipográfica data do Século XIX e foi nessa época que houve uma revolução no sistema de impressão gráfica. Os clichês, matrizes usadas para reproduzir imagens e textos, eram confeccionados manualmente (assim como o talho doce) em madeira, inicialmente e em diversos tipos de metais, principalmente o cobre (fig. 1).


Figura 1

Com o advento da fotografia houve uma evolução na forma de se confeccionar os clichês e eles passaram a ser produzidos pelo processo de fotogravação. (Não vou entrar em detalhes porque não vem ao caso.) No início do Século XX, os clichês passaram a ser confeccionados em uma liga de zinco e antimônio. Por ser uma liga de metal macio, os desgastes eram enormes (fig. 2), além de sofrerem fissuras em determinadas situações (chapa quebrada, p.ex.).


Figura 2

Como a montagem dos clichês para formarem um conjunto de várias unidades de determinado selo era feita manualmente (explicação abaixo), não havia como garantir uma perfeita disposição dos diversos clichês em sua base.

Vamos tentar remontar uma chapa (rama) para aplicar as sobrecargas existentes nos selos encalhados para jornais. Antes temos de explicar como eram montadas essas chapas, as ramas.

Uma chapa tipográfica montada com os seus diversos elementos é chamada de rama. A rama é tipo uma moldura (fig. 3) que recebe os elementos que permitem compor uma imagem e/ou texto gráficos (fig. 4).


Figura 3



Figura 4

No entanto, antes dos elementos serem introduzidos na rama, eram compostos e amarrados com barbante (é isso mesmo), como se vê na figura 5.


Figura 5

Isso era feito para que se pudesse fazer uma revisão do que se havia composto (montado) e para corrigir possíveis erros, já que todo o processo era manual e bastante complexo (fig. 6). Era possível compor (montar) uma rama mesclando clichês e tipos (fig. 7).


Figura 6



Figura 7

Podia-se montar os tipos na vertical e na horizontal, nunca na diagonal (fig. Cool.


Figura 8

Para se ter uma imagem tipográfica rotacional ou ilustrativa rotacional (imagem gráfica) era necessário lançar mão de clichês (fig. 9), confeccionados de acordo com desenhos pré-estabelecidos.


Figura 9

Após o processo de composição, a rama, devidamente composta, era colocada num prelo próprio e submetido a uma pré-impressão (prova) para que se tivesse uma prévia de como seria a impressão final (fig. 10). Depois, então, é que a rama era montada na impressora para que se imprimisse o trabalho esperado (fig. 11).


Figura 10



Figura 11

Existiam três tipos básicos de máquinas impressoras: manuais, semi-automáticas e automáticas. Na figura 12 temos uma impressora semi-automática. E isso é tudo o que precisamos saber do funcionamento de uma impressão tipográfica. Qualquer erro, por favor, reporte para que seja feita a devida correção.


Figura 12

Em seguida, vamos analisar como deve ter sido feita a sobre-estampagem nos selos para jornais.

Errata: Na verdade, a impressão tipográfica é centenas de anos mais antiga. O que data do Século XIX é a confecção de clichês fotográficos para uso em tipografia.
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por Edson Benedito dos Santos em Ter Dez 12 2017, 08:34

Parabéns pela exposição Romeu. Ela me fez recordar os 7 anos em que trabalhei numa tipografia na minha cidade natal, montando essas chapas para impressão.
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por RomeuNatale em Sex Dez 22 2017, 06:37

Obrigado, Edson. Eu trabalhei como tipógrafo no finalzinho da década de 1960 e depois fui para outras áreas dentro da indústria gráfica. A tipografia já estava caindo em desuso, dada a sua limitação e custo operacional. Mas é muito bom lembrar dessa época e de ter acompanhado essa evolução tão de perto.
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por RomeuNatale em Sex Dez 22 2017, 08:59

Estive analisando como deve ter sido impressa a sobreestampa da sobrecarga desses selos (e de outros semelhantes).

A sobreestampa deve ter sido aplicada, com 90% de certeza, através de um clichê (figs. 1, 2 e 9, acima) em tipografia. Em tipografia temos certeza porque existe um edital, de 17 de maio de 1898 que assim o diz. Inclusive cita que foi executado na própria Casa da Moeda, bem como na gráfica Casa João Guimarães, no Rio de Janeiro. Os selos Jornais de 1889 foram originalmente impressos em litografia (antessessora da offset; VILLAS-BOAS, André. Produção gráfica para designers. Rio de Janeiro:2AB, 2008) conforme o edital de 23 de março de 1888, porém já encontrei exemplares (possuo um) que tem todas as características de terem sido impressos em tipografia. Infelizmente não tenho equipamento para poder expertizar esse selo. Normalmente a impressão tipográfica deixa um relevo (alto ou baixo) no papel, mas muitas vezes esse relevo é quase imperceptível, necessitando equipamentos especiais para poder determinar a sua validade. Mas vamos às sobreestampas.

As sobreestampas são diagonais, o que nos permite ter a quase certeza de terem sido confeccionadas em clichê e não de terem sido montadas tipograficamente (a montagem tipográfica é feita em ramas com tipos móveis, como já explicado acima), porque a imagem é diagonal e montar tipograficamente os tipos na diagonal era muito difícil naquela época. E hoje não é muito diferente (fig. 13).


Figura 13

A continuar...
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por Arthur Nascimento em Sex Dez 22 2017, 10:29

Suposições para examinar esses selos:
1- Luz ultravioleta
2- imagem estereoscópica de frente e verso - isso mostra possíveis relevos
3- prensar o selo em um plano ótico e iluminar ele com diversos comprimentos de onda até que o relevo da impressão apareça
4- Luz polarizada

Como disse são suposições e quem tiver disponibilidade de aplicação , por favor comunique os resultados
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por RomeuNatale em Sex Dez 22 2017, 12:23

Arthur, obrigado pelas dicas. Irei utilizar as que ainda não utilizei (item 4). Mas o ideal seria um espectrofotômetro de precisão como os da linha AZ Tech da Hitachi. Infelizmente são equipamentos de custo altíssimo, só sendo possível encontrá-los em grandes universidades, museus, grandes laboratórios, etc.

Eu possuo algum equipamento, inclusive espectrofotómetro, mas nada que chegue perto dos mencionados. Abaixo um exemplo do scan do selo Jornais J-10 (RHM), digitalizado em um scanner Zeiss T-SCAN LV, de propriedade da UFRJ. A imagem está reduzida. Quem se interessar por ela em tamanho original, como foi escaneada, está disponível no seguinte link: Imagem Jornais J-10 Original. Esse é o selo que eu tenho quase absoluta certeza de ter sido tipografado. Apesar do sistema litográfico apresentar certo relevo, ele é proveniente da tinta e não do amassamento do papel, como é o caso desse.


Dados do escaneamento:

Profundidade de cor: 48 bits
Resolução real (não interpolada): 4800 DPI
Tipo de imagem: TIFF (compactação LZW)
Tamanho: 100%
Filtros: Nenhum
Tratamento: Nenhum
Ajustes: Nenhum
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por RomeuNatale em Sex Dez 29 2017, 05:44

Lendo mais atentamente o tópico, vi que deixei de comentar algo interessante. Esses Ângulos retos, tecnicamente, são chamados de "marcas de registro". Eles auxiliam a que uma segunda impressão na máquina tenha um marco para que a posição seja correta, dentro do esperado. No caso desse selo vimos que não adiantou muito.

Ela é usada principalmente em policromia (quadricromia) porque o casamento das retículas nas quatro cores básicas, CMYK, devem ser perfeitas para não aparecerem defeitos de impressão (fig. 1).



Figura 1
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por RomeuNatale em Sex Dez 29 2017, 06:14

Fábio, bom dia. Analisando melhor esses selos, me bateram algumas dúvidas. Na verdade, muitas. Tem como você conseguir muitas imagens deles? Principalmente várias de um único valor, ou se possível uma folha inteira.

Dúvidas:

1. Por que as marcas de registro não foram feitas nas folhas?
2. Se as marcas estão nos selos dá a entender que cada selo foi tipografado individualmente e isso seria inviável, praticamente impossível.
3. Mesmo supondo que a impressão tenha sido feita em máquinas "minerva"*, o registro teria de ser feito pela folha e não pelo selo.
4. Se teve marca de registro, por que algumas sobrecargas ficaram fora de registro?
5. Os clichês eram individuais, para cada selo, montados na rama? Ou era um clichê único para uma folha?
6. Era mesmo clichê? Se não era, como foi montada a rama com os caracteres na diagonal? Criaram algum tipo de espaçador para isso?
7. Em todos os valores existem essas marcas?

São muitas dúvidas mesmo. Gostaria de saber a quantidade de selos conhecidos com essas marcas e quais foram os valores. E também seria interessante analisar a impressão, para ter certeza de ter sido tipográfica (fiquei em dúvida agora) e não serigráfica. Comecei a me interessar muito por essa série, mas não encontramos uma quantidade razoável deles, infelizmente.

Talvez se fizéssemos um muitirão dessa série, onde todos que os possuem os escaneassem e nos enviasse o scan para estudo.




*

Como se dizia antigamente, fiquei grilado agora.
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por thylamys em Dom Dez 31 2017, 22:00

Boa noite amigos
Tenho estes aqui comigo (116 e 122)


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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por RomeuNatale em Seg Jan 01 2018, 06:19

Bom dia e feliz 2018.

Alguém tem algum que possua dus marcas de registro, em lados opostos?
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por RomeuNatale em Seg Jan 01 2018, 06:28

Bom dia, Arthur.

Você como químico teria como analisar a tinta da sobrecarga desses selos? Seria excelente para os nossos estudos. Obrigado.
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por Fabio Monteiro em Seg Jan 01 2018, 15:33

Boa tarde, pessoal, e Feliz Ano Novo! Este tópico está pegando fogo, acho que vamos juntos descobrir muita coisa nesse tema. Em primeiro lugar, muito obrigado pelos comentários, bem como pelas imagens enviadas por Leandro. Elas comprovaram que as marcas de registro (os “ângulos de alinhamento” por mim descritos) foram feitas juntamente com a sobreestampa do novo valor, como se pode verificar nas cores do 1000/700 reis (RHM 122), por ele postado, e do 300/200 reis (RHM 117), postado mais acima. Já o Romeu reforçou a hipótese de origem tipográfica em clichê das sobrecargas. Andei pesquisando sobre o uso de técnicas serigráficas em papel, mas, pelas datas, elas teriam sido inviáveis no Brasil em 1898.

O Romeu perguntou por imagens de múltiplos desses selos. Tenho apenas três exemplares, um par e duas tiras de quatro, todos novos e com as  respectivas margens da folha. O par é o J-13, ou seja, sem sobrecarga, com a margem esquerda de ca. 17,5 mm de largura:



As tiras de quatro são com sobrecarga, ambas 700/500 reis, RHM 119 e 120, nenhuma delas apresenta marcas de registro. O 119 (verde claro sobre laranja) vem com a margem esquerda de folha de quase 16 mm:



Já o 120 (preto sobre verde) tem a margem direita da folha de ca. 19,5 mm:



Agora respondo como posso às perguntas de 29 de dezembro do Romeu:

1.Por que as marcas de registro não foram feitas nas folhas?

Minhas hipóteses: porque as margens eram estreitas demais (menos de 2 cm), e porque havia problemas com a gomagem. Segundo Dorvelino Guatemosim (Miscelanea, 1935, pg.191), na Circular No. 323 de 20/7/1899 duma Subdiretoria dos Correios lê-se: “Não podendo ser mais gomados os selos de jornais sobretaxados dos valores de 20, 50, 100, 300, 500, 700 reis e 1$000 a 2$000, porque a picotagem dos mesmos, segundo informam a esta Diretoria a Casa da Moeda, impede a boa execução daquele trabalho, e o que é mais, concorre para que a máquina de gomar os esfacele, recomendo-vos mandeis fornecer aos compradores, no momento da venda dos ditos selos, a goma necessária para a completa aderência dos mesmos, pois é o único recurso que se pode empregar.” O conteúdo da Circular parece ser um indício bastante seguro de que os selos para jornais saíram de Nova Iorque entre dezembro de 1888 e março de 1890 sem goma, sendo somente gomados no Rio de Janeiro, na Diretoria do Correios ou na Casa da Moeda.

2.Se as marcas estão nos selos dá a entender que cada selo foi tipografado individualmente e isso seria inviável, praticamente impossível.

Na hipótese de Dombrowe, as marcas estariam apenas nos selos dos quatro cantos de cada folha. O clichê da sobreestampa seria praticamente do tamanho da folha original, sem as margens. Como cada folha da ABN continha 100 selos (10 x 10), o clichê da sobreestampa seria um retângulo de aproximadamente 30 x 37 cm, com as quatro marcas de registro am ângulos retos nos cantos, além dos novos valores de porte, acompanhados da indicação do ano (1898), reproduzidos 100 vezes.

3.Mesmo supondo que a impressão tenha sido feita em máquinas "minerva"*, o registro teria de ser feito pela folha e não pelo selo.

Aqui passo, pois não sei o que é uma máquina Minerva. E, pela explicação acima, o registro fazia-se por folha.

4. Se teve marca de registro, por que algumas sobrecargas ficaram fora de registro?

Estando as marcas nos cantos da cada folha, todas as sobrecargas estariam dentro do retângulo imaginário por elas formado.

5.Os clichês eram individuais, para cada selo, montados na rama? Ou era um clichê único para uma folha?

Aqui acredito que havia os dois casos. Na tira do RHM 120 percebe-se claramente a existência de sobreestampas diferentes lado a lado. Isso seria, a meu ver, um indício de clichês individuais dentro da rama. O mesmo aconteceria com o RHM 118 (500/300 reis), que tb apresenta sobrecargas diferentes:



6. Era mesmo clichê? Se não era, como foi montada a rama com os caracteres na diagonal? Criaram algum tipo de espaçador para isso?

Acredito que era um clichê, ou vários,  já que, como vc mesmo explicou, era inviável, na época, uma rama tipográfica com caracteres em diagonal.

7. Em todos os valores existem essas marcas?

Agora a coisa fica mais interessante ainda, pois não foram encontradas essas marcas, até o momento, para os selos RHM 114, 118, 119 e 120. E estes selos são os mesmos que apresentam variações de sobrecarga! A se confirmar isso, teríamos talvez uma pista pra podermos localizar onde foram impressos quais selos dessa série. Pois é sabido que algumas das sobreestampas foram feitas na Casa da Moeda, enquanto outras, na Casa João Guimarães. Quem sabe uma das casas impressoras trabalhava com clichês individuais, enquanto a outra, com um clichê único? Pois não seria lógico que se misturassem ambas alternativas no mesmo local de impressão, vc não acha?

Outro detalhe intrigante tem a ver com a gomagem (ou regomagem) desses selos. Como já foi visto acima, eles teriam sido gomados no Rio, mas minhas tiras de quatro apresentam gomagens diferentes. O RHM 119 tem uma faixa de ca. 11 mm sem goma...



... enquanto o RHM 120 é gomado por completo até o canto da folha:



Por que isso? Essa série é mesmo um osso duríssimo de roer...
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por Fabio Monteiro em Ter Jan 02 2018, 09:52

E quanto ao selo de 10 reis postado acima, que o Romeu acredita ser tipografado, acho que poderíamos pensar numa falsificacäo pra fraudar os correios. Todas as fontes consultadas afirmam que os selos pra jornais impressos pela ABN em Nova Iorque foram gravados em litografia.

Seria o caso de se comparar a cor desse selo com outros exemplares.  Na mesma ocasiäo, poder-se-iam comparar tb as margens, uma vez que o exemplar suspeito näo parece apresentar um percê normal...


Última edição por Fabio Monteiro em Ter Jan 02 2018, 15:43, editado 1 vez(es)
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por RomeuNatale em Ter Jan 02 2018, 13:23

Realmente, Fábio, essa série vai nos fazer branquear mais ainda os cabelos. A série que eu mais estudei até hoje é Alegorias e Próceres da República e digo, ela complicada também. E olha que eu tenhos todos os fac símile dos Diários Oficiais da época. Nos Correios não existe uma única informação e nem na Casa da Moeda. Acredito que teremos de trabalhar como eu trabalhei para resolver as questões da série Próceres. E será muito trabalho mesmo. Porque além dos sobreestampados serem mais antigos, são muito mais escassos.

Mãos a obra. Vamos assar os piolhos e fazer as caspas virarem mandiopã.
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por ahl em Ter Jan 02 2018, 14:46

Boas tardes,

Caros RomeuNatale e Fabio Monteiro,

Sobre a produção dos selos em questão e respectivas sobretaxas não sei se terei algumas informações específicas em livros ou revistas de antanho. Se as encontrar e se forem importantes direi algo.

Sobre impressão aqui deixo as seguintes informações:

A composição com palavras ou frases orientadas na"diagonal" ou até distribuídas ao longo de contornos curvos era usada na tipografia com "minervas",  i.e. máquinas de impressão com pressão efectuada por dois planos.

Quando as chapas não vinham com "atravessados" o que se fazia era uma "imposição enviesada" (1) - direcção oblíqua das palavras ou frases.
Em alternativa também se podia efectuar uma "marginação inclinada" -  dando às "balizas" das folhas a inclinação desejada.

A explicação para os tipógrafos e exemplos de aplicação vêm pelo menos nos seguintes livros:
SILVA, Libânio da (1962:260-261). Manual do Tipógrafo. Lisboa: Grémio Nacional dos Industriais Gráficos, 2ª edição. [1ª edição em 1908].
(1) - SILVEIRA, A. (1947). Manual do Impressor. Volume I. Coimbra: Escola Profissional Semide.
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por RomeuNatale em Ter Jan 02 2018, 15:58

Boa tarde, Ahl e feliz ano novo!

Obrigado pelas informações. Tudo o que tivermos será de grande ajuda. Agradecemos o seu interesse em nos ajudar. E obrigado por citar os dois livros, vou ver se os consigo, ou pelo menos na biblioteca pública.
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por Christian Bernardi em Dom Fev 18 2018, 19:05

Boa noite amigos! Muito interessante e obrigado pelas informações e estudos! Obrigado Fabio Monteiro por compartilhar essa informação vou verificar alguns jornais que tenho! Abraços amigo!
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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por walkar em Sex Jul 06 2018, 18:12

Fabio, muito interessante as descobertas.

Comprei um lotezinho de jornais sobrestampados recentemente (+ de 100, quase todos os valores). Infelizmente, nenhum tem as margens de registro. Mas encontrei algo um pouco curioso.

No lote de 13 selos do 200Rs sobrestampado sobre o 100Rs (RHM 116), encontrei váriações da cor violeta/lilás (como esperado), mas aí tem um azul claro e outro cinza/lilás (ver foto, os últimos 2). A sobrestampa é preta bem clara neste últimos 2 selos e o formato também coerente com outros. Minha hipótese é que a cor foi modificada por algum banho químico/lavagem, o que teria alterado a cor original do selo. Mas seria de esperar que a cor preta da sobrestampa também fosse afetada, o que não parece ser o caso. Observei com super lupa (60x) e com microscópio no PC (umas 150x), e não consigo ver nada anormal.

Concordarias com a minha hipótese, ou poderia ser algo mais? O RHM não descreve nenhuma variação azulada ou cinza do Jornal Original (J-13).



Abraços, Walter
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walkar

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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por Fabio Monteiro em Sab Jul 07 2018, 07:49

Bom dia Walter, e obrigado por postares os jornais sobreestampados. Já o selo original (100 reis, de lilás a violeta escuro) apresenta diversas tonalidades estranhas, como qualquer um pode constatar, se tiver uma quantidade suficiente deles. O catálogo Michel já diz que a série original tem cores muito sensíveis (sehr empfindlich), facilmente degradáveis, portanto. Acredito que ele se refere ao 100 e ao 700 reis, em especial.

E se juntarmos aqui a acäo eventual de algum espertinho "inventor" de variedades, podemos esperar mais exemplares estranhos nessas séries.
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Fabio Monteiro

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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

Mensagem por walkar em Sab Jul 07 2018, 10:29

Fabio, obrigado pelo esclarecimento. Preciso enriquecer minhas fontes de consulta bibliográficas. Tenho apenas os catálogos RHM e Scott. Mas conto com este fantástico grupo de filatelistas sempre dispostos a compartilhar seus vastos conhecimentos!
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walkar

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Re: Variedades nos jornais sobrestampados de 1898-99: uma descoberta recente

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