Mais duas cartas do Império

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Mais duas cartas do Império

Mensagem por Fabio Monteiro em Sex Abr 14 2017, 18:07

Vamos aproveitar a calma do feriado tb pra postar algum material recentemente adquirido. Começamos com uma carta enviada do Rio em 8 de outubro de 1878 pelo vapor Minho, que passou por Lisboa e presumo que tenha chegado ao Porto em 28 do mesmo mês:



Há carimbos do remetente, da partida do Rio, de uma presumível passagem por Lisboa (“P. Transatlantico, 27 OUT 78”) e um carimbo “FRANCA” com moldura oval a indicar que estava tudo pago. Além do carimbo mudo num Barba-Branca de 260 reis em franquia isolada, de acordo com a tarifa postal de 1877, do Tratado de Berna :



O selo aliás, é o único exemplar do RHM 43 que conheço com legendas da ABN sobre carta. O carimbo não o encontrei em Paulo Ayres, mas parece ser o No. 1076 no catálogo Dingler/Lopes:



Segundo o Jornal do Commercio de 3 e 6/10/78, o paquete inglês Minho zarpou do Rio dia 9 daquele mês, passado por Lisboa a caminho de Southampton e Antuérpia. Deverá ter seguido de trem para o Porto?

Na carta, o comerciante José Maria Pardo escreve aos colegas de Pedro Antello & Cia, com letra caprichada:



Mas Pedro Antello provavelmente não respondeu à carta, pois seu testamento foi apresentado em 2/11/1878, segundo o Arquivo Municipal do Porto:
http://gisaweb.cm-porto.pt/units-of-description/documents/13633/

Da segunda carta só arrematei o envelope, postado em Santos em 8/3/1883 em direção a Hamburgo, pelo vapor Neva, com carimbo do remetente Nothmann & Co., um carimbo postal de partida, e outro carimbo mudo sobre um Cabeça Pequena de 200 reis (RHM 50), em franquia isolada:



A tarifa de 200 reis, mais barata do que a carta de 5 anos antes, segue a nova tabela que entrara em vigor já em abril de 1879. O carimbo mudo é difícil de ser exatamente identificado, por ser uma forma usada em muitas variações, p.ex (do catálogo Dingler/Lopes):



No verso, mais carimbos:



Um carimbo do Rio datado de 10 de março, outro tb do Rio, com dia pouco legível (10?, 13?), e finalmente um carimbo de 3/4/1883 de Hamburgo, onde tb se lê “8-9 V.”, o que deve significar: das 8 às 9 da manhã (“Vormittags”).

Segundo o Jornal do Commercio (março de 1883), o paquete inglês Neva chegou ao Rio no dia 9 e zarpou dia 11 de março com destino a Southampton e Le Havre. Como não há marcas inglesas ou francesas no envelope, é possível que a carta tenha trocado de navio ainda no Rio de Janeiro, o que explicaria os dois carimbos cariocas. Pois o vapor alemão Hamburg, da H.S.D.G., partiu do Rio no dia 13 com destino a Hamburgo via Lisboa, segundo o mesmo Jornal do Commercio.

Fonte consultada:
DINGLER, J.A. & LOPES, K.W.: Carimbos Mudos do Brasil Império 1865-1889, Rio, 2000.


Última edição por Fabio Monteiro em Dom Abr 16 2017, 03:30, editado 1 vez(es)
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Re: Mais duas cartas do Império

Mensagem por carol c em Sex Abr 14 2017, 20:29

Me encanto com esse teu trabalho de pesquisa!!
Não entendo nada e também não me interesso muito pelo assunto, mas fazes até parecer divertido.
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Re: Mais duas cartas do Império

Mensagem por H Roberto em Sex Abr 14 2017, 20:49

Lembra o filme "Os caçadores em busca da arca perdida"...documentos antigos...papiros mas o filme é cativante
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Re: Mais duas cartas do Império

Mensagem por Marco em Sab Abr 15 2017, 10:37

Belo material, Fábio, e belíssima pesquisa. Parabéns!
A sequência dos carimbos permite mesmo um levantamento acurado.
Me ocorrem dois comentários pontuais: a "letra caprichada" provavelmente não é do comerciante, mas de um "escriba" (escriturário, escritor, copista, etc.) normalmente contratados pelos comerciantes, autoridades públicas, instituições oficiais, etc.
Achei também legal sua leitura do catálogo Dingler \ Klerman: meu palpite é que na segunda carta trata-se do 2755... Smile Na verdade, algumas destas classificações de carimbos podem ser de peças semelhantes ou, até, da mesma peça (carimbo) aplicada de modo diferente, com mais ou então menos tinta, desgaste com o tempo, mais ou menos força no ato de carimbar, etc.
Além de termos belos materiais, temos mesmo que tentar tratá-los e compreende-los da melhor maneira possível ! Shocked
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Re: Mais duas cartas do Império

Mensagem por Fabio Monteiro em Sab Abr 15 2017, 13:29

Obrigado pelas palavras de incentivo! Mas não as acho tão merecidas, uma vez que toda a pesquisa foi feita na net, com outras informações e técnicas que aprendi neste fórum, ao longo dos últimos anos. Aqui aprendemos juntos, dos colegas e com eles. Quem tem curiosidade e um pouco de tempo pra buscar o que lhe interessa chegará aos seus resultados.

Filatelia não é juntar selos, é escutar o que eles contam. Antigamente muitas pessoas colecionavam selos para ouvir notícias e ecos de países distantes, num tempo em que as viagens intercontinentais eram privilégio de poucos. Abrir uma carta do exterior era um prazer raro, excitante. Hoje as viagens ficaram bem mais acessíveis, o número de cartas diminui, o de filatelistas idem, existem meios muito mais rápidos e baratos de se comunicar. O mercado filatélico vai diminuindo tb e entrando num processo perigoso de concentração. Por outro lado, o acesso a selos e inteiros postais é bem mais fácil, quem tem tempo e uns trocados sobrando aumenta sua coleção sem a demora de antes.

De uma viagem virtual no espaço, a filatelia passou a ser um túnel do tempo. Ao pesquisarmos sobre o percurso de uma correspondência num século passado, aprendemos como a vida cotidiana funcionava em diversos países e, por extensão, como as pessoas organizavam suas vidas, individuais e em sociedade. Esse espelho retrovisor histórico tem a mesma importância do retrovisor num automóvel: quem cuida o trânsito atrás de si terá menos riscos de acidentes pela frente.

No mundo em geral, e talvez no Brasil em particular, passamos por um momento muito delicado, onde a intolerância e o preconceito ameaçam destruir diversos benefícios acumulados ao longo de décadas, e mesmo séculos. Essa intolerância e esse preconceito manifestam-se principalmente na maneira como nos tratamos nos pequenos detalhes do dia-a-dia. Mesmo aqui no fórum podem ser percebidos seus ecos: lembro de um membro, tão apaixonado quanto contestado, que teve que se despedir no ano passado. Outro membro foi recentemente alvo de chacota pelas suas perguntas de novato, como se todos nós já tivéssemos nascido com o conhecimento filatélico de hoje. Por sorte, um colega interveio e protestou, claro e sereno, apontando a injustiça que o novato sofrera.

Acredito que investir no conhecimento e reparti-lo é o melhor meio para combater aquela intolerância que só vai nos dividir. De minha parte, continuo colaborando sempre enquanto puder, por convicção e por gratidão. Abs a todos.
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Re: Mais duas cartas do Império

Mensagem por ahl em Sab Abr 15 2017, 13:33

Fabio Monteiro escreveu:Vamos aproveitar a calma do feriado tb pra postar algum material recentemente adquirido. Começamos com uma carta enviada do Rio em 8 de outubro de 1878 pelo vapor Minho, que passou por Lisboa e presumo que tenha chegado ao Porto em 28 do mesmo mês:

[...]

Segundo o Jornal do Commercio de 3 e 6/10/78, o paquete inglês Minho zarpou do Rio dia 9 daquele mês, passado por Lisboa a caminho de Southampton e Antuérpia. Deverá ter seguido de trem para o Porto?

[...]


Boas tardes

Caro Fabio,

Paquete Minho da Royal Mail Steam Packet - saiu do Rio a 9/10/1878 tendo chegado a Southampton a 31/10. (1)
Passou em Lisboa, deixou a carta tendo a mesma recebido o carimbo do correio relativo à origem - Paquete Transatlântico.

Em seguida foi enviada para o Porto onde chegou no dia 28/10. Significa isto que o carimbo de Lisboa será de 27/10, na medida em que o correio enviado de comboio de Lisboa para o Porto demorava 1 dia.
Assim sendo se o carimbo de Lisboa tiver a data de 22/10 será engano no datador.

O carimbo FRANCA dentro de uma oval, aplicado em Lisboa, significava que nada havia a pagar à chegada, após o Brasil ter entrado para a UGC a partir de 1/7/1877.

(1) -  HOWAT (1984). South American Packets 1808-1880 [...]
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Re: Mais duas cartas do Império

Mensagem por H Roberto em Sab Abr 15 2017, 14:03

Esse documento endereçado a Pedro Antello & Cia lembra os tempos de colégio dos Irmãos Maristas...a prática da caligrafia 
hoje se vc falar isso numa sala de aula tá sujeito a levar uma surra. Outro detalhe escrita com pico de pena..
no meu tempo em cada classe um recipiente para tinta (tinteiro) onde se mergulhava a pena (na ponta da caneta).
Meu saudoso pai possuía uma caligrafia invejável.
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Re: Mais duas cartas do Império

Mensagem por Marco em Sab Abr 15 2017, 15:27

Fábio,
compartilho suas reflexões. A truculência se apresenta em gradações maiores e menores, sutis ou evidentes, em vários aspectos da vida. Inclusive na maneira como olhamos nossos selos... A história das comunicações humanas é um dos aspectos fascinantes da filatelia, como você aponta. De acordo com meu avatar aí do lado (uma vinheta anarquista da Guerra Civil espanhola), há que combater os fascismos onde e como eles se manifestarem... Já que você está na Alemanha, tomo a liberdade de postar abaixo um poema atribuído a Bertolt Brecht (aliás, este autor é tema de alguns selos alemães) e que tem a ver com nossos tempos:

O Analfabeto Político

O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto e o lacaio
das empresas nacionais e multinacionais.

(Berthold Brecht)

No mais, tenho preferido me "exilar" no século XIX, com seus selos, documentos e imagens...


Fabio Monteiro escreveu:Obrigado pelas palavras de incentivo! Mas não as acho tão merecidas, uma vez que toda a pesquisa foi feita na net, com outras informações e técnicas que aprendi neste fórum, ao longo dos últimos anos. Aqui aprendemos juntos, dos colegas e com eles. Quem tem curiosidade e um pouco de tempo pra buscar o que lhe interessa chegará aos seus resultados.

Filatelia não é juntar selos, é escutar o que eles contam. Antigamente muitas pessoas colecionavam selos para ouvir notícias e ecos de países distantes, num tempo em que as viagens intercontinentais eram privilégio de poucos. Abrir uma carta do exterior era um prazer raro, excitante. Hoje as viagens ficaram bem mais acessíveis, o número de cartas diminui, o de filatelistas idem, existem meios muito mais rápidos e baratos de se comunicar. O mercado filatélico vai diminuindo tb e entrando num processo perigoso de concentração. Por outro lado, o acesso a selos e inteiros postais é bem mais fácil, quem tem tempo e uns trocados sobrando aumenta sua coleção sem a demora de antes.

De uma viagem virtual no espaço, a filatelia passou a ser um túnel do tempo. Ao pesquisarmos sobre o percurso de uma correspondência num século passado, aprendemos como a vida cotidiana funcionava em diversos países e, por extensão, como as pessoas organizavam suas vidas, individuais e em sociedade. Esse espelho retrovisor histórico tem a mesma importância do retrovisor num automóvel: quem cuida o trânsito atrás de si terá menos riscos de acidentes pela frente.

No mundo em geral, e talvez no Brasil em particular, passamos por um momento muito delicado, onde a intolerância e o preconceito ameaçam destruir diversos benefícios acumulados ao longo de décadas, e mesmo séculos. Essa intolerância e esse preconceito manifestam-se principalmente na maneira como nos tratamos nos pequenos detalhes do dia-a-dia. Mesmo aqui no fórum podem ser percebidos seus ecos: lembro de um membro, tão apaixonado quanto contestado, que teve que se despedir no ano passado. Outro membro foi recentemente alvo de chacota pelas suas perguntas de novato, como se todos nós já tivéssemos nascido com o conhecimento filatélico de hoje. Por sorte, um colega interveio e protestou, claro e sereno, apontando a injustiça que o novato sofrera.

Acredito que investir no conhecimento e reparti-lo é o melhor meio para combater aquela intolerância que só vai nos dividir. De minha parte, continuo colaborando sempre enquanto puder, por convicção e por gratidão. Abs a todos.
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Re: Mais duas cartas do Império

Mensagem por Fabio Monteiro em Dom Abr 16 2017, 03:34

Obrigado pelos retornos.

Fiz uma imagem de melhor resolucäo dos carimbos portugueses na carta de 1878:



ahl tem razäo: é 27, e näo 22 de outubro. Já corrigi acima, obrigado!

Ao Marco, obrigado por postar o poema de B. Brecht, a quem muito admiro como dramaturgo.
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Fabio Monteiro

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Re: Mais duas cartas do Império

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