Duas Cartas gaúchas de 1823 e 1831

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Duas Cartas gaúchas de 1823 e 1831

Mensagem por Fabio Monteiro em Dom Jan 08 2017, 11:18

Amanhã volto ao trabalho; preciso, portanto, parar de remexer nas minhas gavetas e deixar os envelopes, cartas, sobrecartas, capas de cartas, sobrescritos e cartões postais em paz até as próximas férias. Isso se o tempo não der praia, nem os peixes estiverem mordendo...

Mas antes de fechar a gaveta vamos ainda postar duas cartas do Rio Grande do Sul, das vésperas da Guerra dos Farrapos (1835-1845), que hoje leva o nome politicamente correto de Revolução Farroupilha. A primeira delas foi enviada de Charqueada à Vila de Rio Pardo em 1823, e parece mesmo ter atravessado a guerra:



Percebe-se de imediato que, naqueles tempos bicudos, o papel era raro e/ou caro, pois na casa do destinatário aproveitou-se a carta para as contas do dia-a-dia. O destinatário era José Vieira da Cunha, certamente um estancieiro em Rio Pardo, nas margens do Jacuí. Rio Pardo era tb uma das quatro primeiras sedes administrativas da província de S. Pedro do Rio Grande, sua área original ultrapassava os 150 mil km quadrados (hoje tem pouco mais de 2 mil). A carta diz:


 
Xarqueada, 18 de 7bro de 1823
Meo Compre. e Amigo. Já lhe escrevi porem como este he bom portador novam.te lhe digo que o Negro me paresce não valle o q. Seo Snr. pede q. são 20 dobles livre de liza (?). Rogolhe o obzequio de lhe procurar comprador e avizar-me o q.e dao por elle, o donno diz q.e o Manjor Felipe o quer(.) elle he bom xacareiro mais qd. istar em povoação não serve.

A pressa so da lugar de dizerlhe q.e sou
De V. Mce.
Comp.e e Am.o

Joze Carlos (?)

P.D. Se percizar castigallo não escrupulize
(rubrica)

Ou seja, o José Carlos de Charqueada quer ganhar alguns trocados como corretor de escravos e pede ao seu amigo e compadre José Vieira da Cunha que lhe arranje um comprador para um negro em Rio Pardo. Ao mesmo destinatário tenho tb algumas cartas de seu filho Liberato, de Cachoeira do Sul.

Pelo visto, tratava-se de uma família muito influente na região. O mais famoso descendente até agora foi Liberato Salzano Vieira da Cunha (1920-1957), prefeito de Cachoeira do Sul aos 27 anos, de 1947 a 1950, depois deputado estadual, e Secretário da Educação do Estado do RS de 1955 até sua morte, num acidente aéreo em Bagé. Dez anos mais tarde, uma Fundação Educacional foi fundada em sua homenagem em Novo Hamburgo (RS).

A segunda carta foi enviada de São Gabriel a Porto Alegre em 1831 e tb tem interesse  histórico:



O destinatário era José Antonio Pimenta, que não era o conselheiro José Antonio Pimenta Bueno, Marquês de São Vicente, visto que este só chegou a Porto Alegre para governar a província em 1850. O remetente foi um certo Boaventura José de Oliveira, de São Gabriel (RS), que diz:

Ilmo. Sr. J.e Anto. Pimenta (27)

Nao me sendo poçível nesta ocazião hir ahi a Cidade rogolhe o favor de mandar imprimir a Correspondençia adjunta asignada pelo amigo dos hom. de bem pa. q. o público veja as maroteiras que comigo tem praticado o Sor. Braga(.) Não se querendo aceitar a Correspondençia sem ser asignada V.Me. me fará o favor de asignarse pr. pr. mim na serteza de q. pr. esta minha carta me responsabilizo pr. todo e qual q.r abuzo na forma da Lei de 20 de 7bro. de 1830.

Dez.o no entanto goze boa saude(.) Na poçe dela conte com seu am.o mto. obr.o
Boaventr.a J.e de Oliv.ra

S. Gabriel 11 de junho de 1831


O “Senhor Braga” a quem o irado missivista se refere era João Francisco Vieira Braga (1793-1887), o futuro Conde de Piratini, que em 1829 comprara de Boaventura a Estância da Música, localizada no pampa gaúcho a meio caminho de D. Pedrito a Livramento. Essa estância teve um papel importante na revolta dos Farrapos, sendo mesmo tema de um livro de Guilhermino Cesar (O Conde de Piratini e a Estância da Música.  Administração de um latifúndio rio-grandense em 1832, Caxias do Sul, 1978).

Pois houve uma grande briga entre Boaventura e Braga sobre detalhes dessa venda. A “correspondência” citada acima deu num artigo publicado em 9 de julho de 1831 no Correio da Liberdade de Porto Alegre, e assinado por um “amigo dos homens de bem” (conforme pedido por Boaventura), que baixava a lenha no futuro conde, que por sua vez levou a pendenga aos tribunais. Tudo isso está exposto num paper de Karl Monsma (O significado da honra: Um processo por calúnia no Rio Grande do Sul do século XIX , Chicago 1998, link abaixo) .

Para completar, eis o verso da carta:



Existem duas anotações manuscritas, com letras, datas e assinaturas diferentes, que não me parecem terem sido feitas pelo destinatário José Antonio Pimenta:



A anotação maior, que não consegui decifrar, foi assinada possivelmente por dois escrivães e leva data de 6 de fevereiro (?) de 1832. A anotação menor é mais legível: “N. 244 Pg. 40 R.(?) de sello. Pto. Al.e 7 de Fev.o de 1832.” Acompanham outras duas assinaturas (uma delas de um tal Bandeira) e um selo em relevo, com as Armas do Império. Aparentemente a carta foi alguma prova testemunhal na briga jurídica. Enfim, tempos difíceis, aqueles também...

Links:

Imagens de Rio Pardo (RS)
https://www.google.de/search?q=rio+pardo+rs&client=firefox-b&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwj0w9yjrLLRAhUGvBQKHTLvC7kQ_AUICSgC

Fundação Liberato Salzano Vieira da Cunha
https://pt.wikipedia.org/wiki/Funda%C3%A7%C3%A3o_Liberato_Salzano_Vieira_da_Cunha

Paper de Karl Monsma sobre a briga entre Boaventura e Braga, e tb sobre o conceito de honra no RS no séc. XIX (em inglês):
http://lasa.international.pitt.edu/lasa98/monsma.pdf


Última edição por Fabio Monteiro em Dom Jan 08 2017, 13:17, editado 2 vez(es)
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Re: Duas Cartas gaúchas de 1823 e 1831

Mensagem por JOSE RENATO em Dom Jan 08 2017, 12:05

Fábio,

Um espetáculo suas cartas e as histórias por trás delas. Uma verdadeira aula de história e decifrações.

Muito interessante as palavras usadas e a forma de se dirigir aos outros.

Gostei demais...

Um abraço,

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Re: Duas Cartas gaúchas de 1823 e 1831

Mensagem por carol c em Dom Jan 08 2017, 14:53

he he, adorei ver as contas na carta.
Sempre materiais muito interessantes.
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Re: Duas Cartas gaúchas de 1823 e 1831

Mensagem por Fabio Monteiro em Qua Ago 09 2017, 08:30

Novidades sobre José Vieira da Cunha, o destinatário da primeira carta acima. Ele nasceu em 1772 na antiga freguesia de Pedorido, às margens do Douro, norte de Portugal, e veio jovem ao Brasil, acompanhado de dois irmãos. Um destes ficou em Recife, tendo sido ancestral dos fundadores da empresa VicunhaTêxtil, o outro irmão foi pro Rio de Janeiro.

José VC teria se radicado em Rio Pardo, província de São Pedro do Rio Grande do Sul, para se dedicar ao comércio. Lá casou-se em 1798 com Rosa Joaquina de Souza, filha de “um dos maiores sesmeiros da região”. Juntos tiveram oito filhos. Há uns 200 anos, a família construiu a Estância São José, que hoje se chama Estância da Tafona, localizada do Município de Cachoeira do Sul e é considerada patrimônio cultural do RS:


(Divulgacäo SEDAC)

Tudo isso pode ser lido no belo blog da Fazenda da Tafona:

https://fazendadatafona.wordpress.com/

É preciso tb lembrar que Rio Pardo, na época da chegada de José VC, ficava muito perto da nova fronteira do domínio espanhol, segundo o Tratado de Santo Ildefonso (1777):



Então era de grande interesse para a coroa portuguesa o povoamento rápido da região, para defender e eventualmente ampliar a dita fronteira. Uma estratégia que deu certo, como a história posterior acabou por provar.

A palavra tafona vem do português atafona, que, por sua vez, deriva do árabe at-tahunâ, que deve significar moinho: manual, de tração animal, ou movido a água (=azenha). E acabou virando atração turística no meio do RS.

Vou tratar agora de decifrar outras cartas para José VC que arrematei, para postá-las em separado.
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Re: Duas Cartas gaúchas de 1823 e 1831

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