A incrível história de Ernst Ule

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A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Qui Nov 01 2018, 10:16

Alguns meses atrás recebi um BP que comprara num Ebay desses. Este BP tinha alguns detalhes que atiçaram minha curiosidade:



Há algumas falhas de impressão, da legenda Union Postale Universelle acima à esquerda até a Casa da Moeda abaixo à direita. O catálogo RHM de 2016 dedica a página 267 inteira para classificar as variedades dessa emissão, mas não ajuda nada ao dizer que “a classificação é feita observando-se a letra P na palavra Postale de Union Postale Universelle”. Pois em lugar nenhum pude ler qual seria o tamanho do P pequeno ou grande. Talvez alguém mais informado poderia me ajudar aqui. O P deste BP tem uns 3 mm de altura. Como as linhas do verso são vermelhas e o espaçamento dos pontos nas linhas frontais de endereçamento é estreito, calculo que seja um BP-50e (se meu P for grande) ou BP-51e (se o P for pequeno); as variedades mais baratas, portanto.  

O carimbo de partida é do Rio de Janeiro, em 4 de fevereiro de 1896, e o destinatário é um Dr. Federico Kurtz, “cathedratico da botanica na Universidade de Cordoba”, Argentina:



Uma rápida pesquisa revelou que Federico nasceu como Fritz em 1854 em Berlim, onde foi promovido a doutor em 1879. Cinco anos mais tarde, foi convidado a ocupar a cátedra de Botânica na universidade argentina de Córdoba, onde faleceu em 1921. Seus antecessores no cargo foram também alemães: Pablo (Paul) Lorenz e Jorge Hyeronimus (Georg Hans Emmo), o que indica uma certa gemanofilia daquela instituição. Agora vejamos o verso do BP:



Um carimbo de passagem por Buenos Aires em 11 de fevereiro (“9 AM”), e outro, infelizmente mal aplicado, onde se pode ler um 12, possivelmente da chegada em Córdoba. Ao ler o texto em alemão, a história do BP e seu remetente começa a ficar mais interessante ainda:  

“Rio de Janeiro 3 II 1896.
Querido Dr. Kurtz!
Encontrei seu cartão postal ao voltar de uma viagem de 3 semanas à Serra do Itatiaia. Lá encontrei ainda outras coisas e fiz observações interessantes, como também sobre a Purpurella cleistoflora, que encontrei em quantidade. Você deve ter recebido meu pequeno texto sobre ela no anais da sociedade botânica; se não, posso enviar uma cópia avulsa. A fechadura floral foi confirmada, e as rosas prolongadas por campânulas brancas representam não só um habitus muito atípico para uma Melastomacea, como também o exemplo mais curioso de adaptação dessa espécie. Mas o que será do  seu intercâmbio com o museu? Não demore demais, porque a coisa já não aguenta mais. Eu tampouco vou poder segurar, e terei que me virar sozinho. Com saudações do amigo e criado Ernst Ule. a/c Chefe de Divisão Salgado”

A letra é miúda, muito cuidada e evita a escrita alemã arcaica (kurrent), ainda em voga naquele tempo. Sinais de que o escriba tinha ideias modernas e era muito detalhista, boas qualidades para um botânico. Mas quem era o tal Ernst Ule? Repostas a partir do próximo post.


Última edição por Fabio Monteiro em Sex Nov 02 2018, 04:22, editado 1 vez(es)
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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Qui Nov 01 2018, 17:10



Ernst Heinrich Georg Ule nasceu em 12 de março de 1854 em Halle, uma cidade alemã que naquela época fazia parte do reino da Prússia, província da Saxônia. Seu pai Otto Ule (1820-1876) foi um escritor que alcançou notoriedade com livros que visavam esclarecer descobertas científicas a um público interessado, mas pouco instruído. Seu irmão menor Wilhelm (Willi, 1861-1940) tornou-se mais tarde professor de geografia e limnologia nas universidades de Halle e Rostock.

Desde pequeno, Ernst Ule mostrava interesse pela natureza, ao observar plantas e animais com grande prazer. Mas segundo seu biógrafo Hermann Harms, uma febre escarlatina aos 14 anos provocou-lhe distúrbios psíquicos tão fortes, que o impediram de terminar seus estudos escolares e ingressar numa universidade. Mesmo asim, Ernst cursou a Escola de Horticultura em Proskau, na Silésia Superior (hoje Prószków, em território polonês). Lá, seu professor Paul Sorauer reconheceu seu talento e incentivou-o a estudar fungos e doenças das plantas.

Ao término do curso, Ule trabalhou como jardineiro no Jardim Botânico de Halle e assistiu às classes dos professores G. Kraus e J. Kühn na universidade local. Em 1877, Ule mudou-se para Berlim, onde foi empregado no departamento de parques da cidade. Lá, ele logo se enturmou com os botânicos e micologistas mais importantes e adquiriu boa reputação ao descobrir novas espécies de fungos da região. É provável que nessa época ele tenha conhecido Federico Kurtz, pois, como vimos acima, este era seu contemporâneo, de Berlim e se doutorou em 1879. Ainda em 1879, Ule tentou finalizar seus estudos escolares em Coburgo, na Baviera, a fim de poder ingressar numa universidade, no que foi impedido por uma recaída de seus problemas psíquicos. Foi internado num manicômio, de onde fugiu dois anos depois. Passou duas semanas foragido e entregou-se à polícia. Depois de nova internação, foi declarado curado em 1883. Ao sair do hospital, resolveu emigrar ao Brasil.

(continua no próximo post)
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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Sex Nov 02 2018, 18:16

Não encontrei em lugar algum uma explicação para o destino de Ule no Brasil em 1883: Santa Catarina, mais exatamente Joinville. Mas tenho uma hipótese: deve ter havido algum parente por lá. O sobrenome de solteira de sua mãe era Strecker, um nome ainda hoje encontrado com alguma frequência nas redondezas.

Ainda em abril de 1883 foi publicado um estudo botânico de Ule em Halle, mas já dois meses depois ele coletava plantas nas várzeas próximas a Joinville, como ilustram as seguintes amostras, que foram parar na coleção Luerssen-Weigel, de Bremen, e depois de 1909, no Museu Nacional de História Natural em Paris:



 

Seu biógrafo Harms acima citado conta que Ule morou em Joinville e São Francisco do Sul de 1883 a 85 e ganhava uns trocados como “tutor”, ou professor particular, talvez de alemão e ciências. Nessa época, ele fez coletas não só nas várzeas joinvillenses, como também na Ilha de S. Francisco, no Morro do Pão de Açúcar e Serra das Laranjeiras, e enviou à Alemanha mais de 200 fanerógamas, além de musgos e fungos diversos.

Em 1885 Ule mudou-se para Itajaí, de onde fez excursões para Blumenau e Brusque (que naquela época ainda se chamava São Luís Gonzaga), mas já em 1886 ele estava em Desterro (hoje Florianópolis), onde pesquisou a flora na Lagoa, Estreito, São José e Serra do Mar. De maio a outubro de 1887 ele esteve no Rio, e ao regressar a Santa Catarina fixou-se em Blumenau, onde conheceu o lendário cientista Fritz Müller (1822-1897), uma figura mítica que está a merecer um selo brasileiro há muito tempo:



O encontro com Fritz Müller foi com certeza importante para Ule, que provavelmente teria ajudado na publicação alemã das obras do colega mais experiente. Mas já em 1888 Ule mudou-se novamente, desta vez para Tubarão, onde morou até 1890, para estudar e coletar na várzea do Rio Congonhas, nos campos de Laguna, no vale do Capivari, na mata de Pedras Grandes, bem como na Serra Geral. De dezembro de 1890 a abril de 1891 Ule aventurou-se Serra Geral adentro, chegando até a fonte do Rio Uruguai, fronteira com o RS, e conhecendo a recém fundada colônia italiana de Nova Veneza, às margens do Rio Mãe Luzia, hoje poluído pelos resíduos da extração carbonífera:



Em outubro de 1891, os jornais cariocas anunciavam a próxima mudança de Ule, para o Museu Nacional do Rio, que queimou na Semana da Pátria deste ano:



(a continuar)

Bonus tracks:

Fritz Müller:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Fritz_M%C3%BCller

A luta pela recuperação do Rio Mãe Luzia:

https://dnsul.com/2018/geral/dia-da-agua-luta-pela-recuperacao-de-um-manancial/
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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por jorge luiz em Sex Nov 02 2018, 18:56

Belo trabalho de pesquisa, Fábio. Parabéns.
Quantas histórias a filatelia pode nos contar através de um simples pedaço de papel...

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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Sab Nov 03 2018, 20:05

Como Ule arranjou seu emprego no Museu Nacional? Não encontrei nenhum registro, mas imagino que, durante a viagem ao Rio em 1887, ele deve ter se apresentado por lá e falado com os naturalistas de plantão: o francês Gustave (Gustavo) Rumbelsperger (1814-1892), o suíço Emil (Emílio) Goeldi (1859-1917), o americano Orville Derby (1851-1915), e os alemães Karl August Wilhelm (Guilherme) Schwacke (1848-1904) e Karl (Carlos) Schreiner (1849-1896).

   

Depois da queda do Império, em novembro de 1889, muitos dessa turma se demitiram do Museu, por não concordarem com a maneira com que eram tratados pelo governo republicano. Foi a chance de Ule, que pôde ocupar um dos cargos vagos de “naturalista viajante”, na área da botânica. E no Almanak Laemmert de 1892 Ule já era um dos três naturalistas citados, com endereço particular e tudo:



A rua Presidente Domiciano, em “São Domingos de Nitherohy”, existe até hoje. Ule resolveu morar longe do Rio e atravessar a Baía da Guanabara de barca, seja para fugir do burburinho da metrópole, seja por questões financeiras:


Google Maps

O período carioca de Ule foi muito produtivo e lhe trouxe tanta satisfação, que ele falaria com frequência disso bem mais tarde, de regresso à Alemanha. Entre as tantas personalidades do meio científico que ele lá conheceu e com quem tinha boas relações, destaca-se o farmacêutico, fitoquímico e botânico alemão Theodor Peckolt (1822-1912), que fora também um colaborador do cientista alemão Carl Philipp von Martius (1794-1868), o da lendária expedição Spix-Martius ao nordeste e norte do Brasil, de 1817 a 1820.




O roteiro de Spix e Martius (1817-20)

Em janeiro de 1892 Ule partiu em excursão a Minas (Ouro Preto, Serras do Itacolomi, Caraça e Itabira do Campo), regressando em abril. Mas pouco tempo depois, ele participaria da importante Expedição Cruls ao Planalto Central goiano, para estudar e mapear a região que abrigaria a futura capital federal. Em junho do mesmo ano, ele já estava em Uberaba, para onde só voltaria em março de 1893. O jornal publicou até seu salário mensal, de 250 mil réis. Muito mais transparência do que hoje em dia:


Jornal do Commercio, 28 de maio de 1892.

Em fevereiro de 1894, Ule fez zua primeira expedição à Serra do Itatiaia, regressando em fins de março. Essa expedição trouxe-lhe muitas descobertas botânicas (familia Melastomaceae, entre outras) e motivou-o a uma segunda, ocorrida de dezembro de 1895 a janeiro de 1896. Depois da segunda expedição, que o levou a escalar as Agulhas Negras e o Itatiaia-Açu (3000 metros!), ele escreveu o BP que originou estes textos:


O Parque Nacional do Itatiaia, acima à esquerda (Google Maps)

Nessa época, Ule já tinha sido promovido a subdiretor do Departamento de Botânica do Museu (portaria de 21/1/1895). Mas ele tinha outros planos, conforme esboçara em vagas palavras no BP. Em 1898, pediu uma longa licença para uma viagem à Alemanha, onde pôde rever amigos e colegas, monitorar publicações junto ao Museu Botânico de Berlim sobre suas descobertas de musgos e fungos, entre outras plantas, bem como preparar a realização de seu sonho: uma expedição botânica à Amazônia.

(a continuar)
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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Dom Nov 04 2018, 09:57

Não se sabe quando Ule tomou a decisão de viajar como botânico à Amazônia. Mas é lógico associar essa decisão às histórias que ele escutara de seu pai (sobre a expedição de Humboldt em 1799-1804) e de Theodor Peckolt (sobre a expedição de Spix-Martius, 1817-1820). Para conseguir financiar uma expedição própria, seria indispensável o apoio logístico e financeiro que seus contatos no Rio e Berlim poderiam lhe proporcionar. Também por isso, a prolongada licença de 12 meses que Ule obteve do Museu, para sua viagem à Alemanha em 1898-99:


Jornal do Brasil, 22/5/1898


Gazeta da Tarde, 18/8/1898

Mas segundo seu biógrafo Hermann Harms, a expedição sonhada só pôde ser realizada devido a um projeto de biopirataria e um acaso. A biopirataria consisitia em pesquisar as condições de cultivo das seringueiras amazônicas, a fim de poder produzir borracha em grande escala nas colônias alemãs na África e Ásia, a exemplo do que fizeram os ingleses com o espetacular caso de contrabando de sementes de seringueiras por Henry Wickham em 1876. Esse contrabando mudou a história da Amazônia e já foi tema do QdD XXIV.

O projeto alemão diferia do inglês por pretender identificar e estudar in loco as seringueiras, ao invés de apenas contrabandear suas sementes. Para tanto, formou-se em 1899 uma equipe com Karl Schumann (1851-1904, curador-diretor do Museu Botânico de Berlim), o comerciante e botânico amador Nikolaus H. Witt de Manaus e o fabricante de artigos de borracha e político hamburguês Dr. Heinrich Traun (1838-1909), sob a direção Dr. Fritz Kuhla, um jovem botânico alemão de 24 anos, na época assistente no Instituto Botânico de Marburgo.

E agora o acaso: Fritz Kuhla chegou em Manaus em junho de 1899, para falecer de febre amarela em 2 de julho, poucas semanas mais tarde. Ule, que a essas alturas já tinha voltado ao Rio, foi consultado para substituir o jovem defunto e certamente aceitou sem pestanejar, mesmo não entendendo nada de seringueiras. Ele fez ainda uma curta excursão botânica às restingas de Cabo Frio em outubro, mas passou o resto do tempo preparando sua viagem e lutando por uma nova licença junto ao Museu Nacional. Conseguiu uma por seis meses, que tentou prorrogar por um ano adicional, sem vencimentos. Mas esta não lhe foi concedida, depois de longa discussão na câmara dos deputados no Rio, em 1900:



Anais da Camara RJ, ed. 3/1900

A decisão negativa foi precedida de longas discussões, todas registradas nos anais. O biógrafo Harms escreve apenas que “alguém o acusou de trabalhar para interesses estrangeiros”. Na imprensa carioca, apenas o jornal em inglês The Rio News dá nome aos bois e revela que Ule comprou briga com o deputado (e futuro presidente) Nilo Peçanha:


The Rio News, 17/7/1900


The Rio News, 31/7/1900

Mas Ernst Ule nem chegou a ler isso, pois já havia zarpado do Rio em 22 de junho, em direção ao Amazonas. Sua demissão foi confirmada aqui:

 
Relatório do Ministério da Justiça de 1901

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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por odilo em Dom Nov 04 2018, 22:14

Parabéns amigo pelas pesquisas.

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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por jorge luiz em Seg Nov 05 2018, 10:38

Essa pesquisa nos mostra o interesse de estrangeiros na exploração dos recursos naturais de toda ordem do Brasil.
Enquanto Colônia de Portugal, era até compreensível. Mas as ações nefastas para os interesses nacionais continuaram ocorrendo durante o Império e República, ou melhor, continuam ocorrendo até os dias de hoje, agora com uma intensidade nunca vista.

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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Sab Nov 10 2018, 17:29

Obrigado a Jorge Luiz e Odilo pelos comentários, sempre estimulantes. Hoje vamos aproveitar a folga do fim de semana para o relato sobre a primeira expedição amazônica de Ule, de 1900 a 1903. Quem faz hoje uma expedição dessas por lá acha que pratica esportes radicais. Agora imaginem uma expedição naquele tempo, sem o conforto, higiene, infraestrutura e tecnologia de hoje. E ainda entrando numa guerra.

Guerra sim, porque o Brasil estava em guerra não declarada contra a Bolívia. Os seringueiros e coroneis da borracha brasileiros haviam invadido território boliviano para extração de caucho e látex, aproveitando-se de a região estar desocupada (o acesso a partir de La Paz era e ainda é precário, por ter que se atravessar a cordilheira) e de que a Bolívia estava ocupada com sua guerra contra o Chile (1879-1883), pelo acesso ao Pacífico.

Para tanto, inventou-se uma revolução, onde a população (brasileira, na maioria) rebelou-se contra o governo (boliviano), criando por três vezes uma república-fantoche, o Estado Independente do Acre, que só foi reconhecido pelo Brasil.



O primeiro “presidente” foi o jornalista, diplomata e aventureiro espanhol Luis Gálvez Rodriguez de Árias (1864-1935), que “governaria” o Acre por duas vezes, de julho de 1899 a 1º  de janeiro de 1900, e de 30 de janeiro a 15 de março de 1900. Sua vida virou um romance (Galvez, o imperador do Acre, 1976) do amazonense Marcio de Souza (*1946).

O primeiro governo terminou com um golpe do seringueiro cearense Antonio de Sousa Braga. Mas este depois, ao perceber que estava perdendo tempo e dinheiro, devolveu o “país” a Gálvez. Já o segundo governo terminou com a própria intervenção do governo brasileiro que, pressionado pela Bolívia, fez cumprir o Tratado de Ayacucho (1867), que reconhecia o Acre como boliviano. Gálvez foi deposto, preso, solto e fugiu para a Europa. A Tia Wiki espanhola conta que ele teria voltado ao Brasil, sendo preso no Amazonas e confinado no Forte de São Joaquim do Rio Branco, em Roraima, de onde fugiria.

O terceiro “Estado Independente do Acre” foi também orquestrado pelo governo amazonense, desta vez com discreto apoio do governo central brasileiro. Foi então contratado um profissional: o agrimensor e ex-militar gaúcho José Plácido de Castro (1873-1908), que já se encontrava no Acre em busca de fortuna com a borracha.

   

Reza a lenda que Plácido de Castro liderou seus seringueiros a partir de agosto de 1902 (tomada de Xapuri) e declarou a terceira independência em janeiro de 1903, para em seguida pedir a anexação do Acre ao território brasileiro. A mesma lenda reza também que ele liderou “uma forte revolução com mais de 30 mil homens, vencendo as tropas bolivianas, com quase 100 mil soldados oficiais”. Seja como for, a Bolívia desistiu do Acre em troca de 2 milhões de libras esterlinas e da construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, entre outras amenidades, com o tratado de Petrópolis de 17/11/1903. Plácido de Castro teve sua recompensa: foi governador do território, depois prefeito, finalmente latifundiário da borracha, até morrer assassinado na floresta aos 35 anos, numa emboscada dum rival obscuro, num crime até hoje não esclarecido. Hoje é um dos heróis do Panteão Nacional.

Esta foi, portanto, a região onde Ule foi parar em julho de 1900, depois de 8 dias de quarentena com todo o navio na Ilha Grande da Angra dos Reis, para pesquisar sobre borracha amazônica. Como bom prussiano, ele cumpriu sua missão, começando logo em agosto: numa viagem de Manaus subindo o Rio Juruá até Marari, hoje município de Carauari (AM), de onde só voltou em dezembro:



Em março de 1901, Ule subiu novamente o Rio Juruá, desta vez até a barra do Rio Tejo, hoje município acriano de Marechal Taumaturgo, só regressando a Manaus em novembro:



A terceira viagem foi mais curta, de certo devido à época de chuvas, de janeiro a fevereiro de 1902, desta vez subindo o Rio Negro até São Joaquim, hoje no município de Barcelos (AM):



Mas ainda em fevereiro de 1902, Ule zarpou novamente, desta vez ao longo do Rio Madeira, até Santa Maria dos Marmelos, no hoje município amazonense de Manicoré, de onde voltaria em maio:



De regresso a Manaus, Ule deu por encerradas suas pesquisas sobre seringueiras e tratou de realizar, por conta própria, uma expedição sobre as plantas que mais lhe interessavam: musgos e fungos do planalto e montanhas tropicais. Partiu em julho de 1902 em direção ao Peru, subindo o Solimões (Marañon, no Peru) e o Rio Huallaga para chegar em março do ano seguinte em San Antonio de Cumbaza, a 500 metros de altitude, aos pés da cordilheira andina:



Depois de 25 dias no planalto, regressou a Manaus, para fazer as malas novamente: partiu em 15 de maio de 1903 para Hamburgo, onde chegou em 23 de junho.

(A continuar)


Bonus tracks:

A Revolução Acriana, ou melhor, Guerra do Acre:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Acriana
https://es.wikipedia.org/wiki/Guerras_del_Acre_y_Pur%C3%BAs
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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Sab Nov 17 2018, 20:30

O Dr. Evandro Ferreira, pesquisador do INPA e do Parque Zoobotânico da UFAC, publicou entre fevereiro e abril de 2017 uma interessante série de três artigos na versão online da Gazeta do Acre, entitulada “Os alemães também planejaram contrabandear sementes e mudas de seringueiras da Amazônia”:

https://agazetadoacre.com/os-alemaes-tambem-planejaram-contrabandear-sementes-e-mudas-de-seringueiras-da-amazonia-primeira-parte/

https://agazetadoacre.com/os-alemaes-tambem-planejam-contrabandear-sementes-e-mudas-de-seringueiras-da-amazonia-segunda-parte/

https://agazetadoacre.com/os-alemaes-tambem-planejam-contrabandear-sementes-e-mudas-de-seringueiras-da-amazonia-final/

Baseado na biografia de Ule feita por Hermann Harms, cuja tradução ao inglês fora colocada na internet em março de 2016, Evandro Ferreira conta no primeiro artigo sobre o contrabando das 70 mil sementes de seringueira por Henry Wickham, da Amazônia à Inglaterra em 1876, como já falamos acima e no QdD XXIV. Além disso, ele descreve as duas primeiras viagens amazônicas de Ule, ao longo do Rio Juruá (1900-01).

No segundo artigo, Evandro Ferreira relata que a grande quantidade de “amostras-tipo” que Ule enviara à Europa (como os botânicos chamam, amostras-tipo são os protótipos que acabam por designar e ilustrar espécies recém descobertas) foi destruída pelos bombardeios aliados na Segunda Guerra. O próprio Dr. Evandro liderou uma expedição em 2001 ao Rio Juruá-Mirim, exatos 100 anos depois de Ule, com o objetivo de coletar novas amostras-tipo no lugar de origem. Mas não encontrou floresta alguma por lá: o agronegócio derrubara tudo e só havia uma fazenda (Cinco Irmãos) com 1,5 mil hectares de pastagem:



E no terceiro artigo, o Dr. Evandro conta das viagens amazônicas seguintes até o regresso de Ule à Alemanha, em 1903, bem como sobre o trabalho subsequente em Berlim e das viagens por ocasião da segunda expedição de Ule à Amazônia. Detalhes no próximo post.

O cientista acriano sustenta que, se os ingleses não tivessem contrabandeado as sementes das seringueiras, os alemães o teriam feito, graças ao trabalho de Ule. Não concordo, por diversos motivos. Em primeiro lugar, Ule, ao contrário do inglês H. Wickham, não era contrabandista, nem pretendia sê-lo. Toda a sua pesquisa na região teve o apoio não só de entidades alemãs, como tb do próprio estado do Amazonas, a começar pelos governadores José Cardoso Ramalho Jr. e seu sucessor Silvério José Néri. Já no primeiro relatório de sua expedição, publicado no boletim da Sociedade Botânica de Berlim em julho de 1901, Ule agradece ao governador pela gentileza de ter-lhe proporcionado passagens grátis nos vapores do estado.

Em segundo lugar, o próprio Ule reconheceu, no sexto e último relatório (publicado em 1904), que sua expedição não conseguiu coletar as desejadas sementes de seringueiras, por inexperiência sua, pelas condições climáticas, por problemas de transporte e acondicionamento, e finalmente também por desconfiança da população da região.

Além disso, os alemães naquele tempo já estavam investindo na pesquisa da borracha sintética: já em 1909 o químico Fritz Hofmann (1866-1956) patenteava o produto pela primeira vez.

Resta a acusação de biopirataria, que não cabe por dois motivos: o respaldo das autoridades brasileiras (que decerto contavam com algum proveito pelas pesquisas de Ule) e o simples fato de que biopirataria não era crime em 1903. Nulla poena sine lege. Aliás, é bem possível que produtos agrícolas introduzidos no Brasil e que fizeram a riqueza do país durante séculos, como o café, cana-de açúcar e banana tivessem sido casos de biopirataria, se a definição atual fosse aplicável naqueles tempos.

E se o Brasil tivesse mantido o monopólio da borracha até hoje? Será que ainda existiria a floresta amazônica? Se só no ano passado, enquanto o Brasil estava ocupado com a eleição presidencial, o desmatamento na Amazônia aumentou em 40 %:

https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/08/24/desmatamento-na-amazonia-aumentou-40-nos-ultimos-12-meses-diz-instituto.ghtml

Obrigado ao Lima e ao Roberto Pinto pelos links do Dr. Evandro Ferreira.

(a continuar)

Bonus tracks:

A biografia de Ernst Ule, por Hermann Harms, 1915 (tradução ao inglês de 2016)
https://www.biologie.uni-hamburg.de/einrichtungen/wissenschaftliche-sammlungen/herbarium-hamburgense/publikationen/ule-biography-translation-2016.pdf
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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Dom Nov 18 2018, 12:44

Ule chegou em Hamburgo em 23 de junho de 1903; de lá, deve ter viajado direto a Berlim, para desempacotar e organizar tudo que enviara do Brasil ao Museu Botânico. No seu sexto e último relatório da expedição, com data de outubro de 1903 mas só publicado no ano seguinte, ele faz um pequeno balanço de suas coletas:

- 11 a 12 espécies de seringueiras do gênero Hevea
- 1 a 2 espécies de seringueiras do gênero Sapium
- 1 espécie do gênero Castilloa (caucho)
- 1 a 2 espécies ainda desconhecidas, cujo látex tb produzia borracha
- cerca de 2000 amostras de plantas fanerogâmicas e outras 1000 de criptogâmicas, num total acima de 2000 espécies distintas.
- diversas frutas, sementes e outros objetos, secos ou conservados em álcool
- mais de 150 fotos em boa resolução (Ule aprendera a manejar a câmera fotográfica durante a expedição, depois de voltar da viagem pelo Rio Madeira)

Todo esse material rendeu uma série de papers sobre os mais variados temas botânicos, cujo número já passou de vinte, pois toda vez que pesquiso encontro sempre um texto desconhecido, dele ou de colegas, publicado na Alemanha  e baseado nas amostras de Ule. Mas também no Brasil foram publicados estudos fundados sobre suas pesquisas:


Boletim do Museu Paraense, 1904, IV

Entre 1903 e 1906, segundo Harms nos conta, Ule não só trabalhava no material amazônico, como também fez uma pequena expedição aos Cárpatos (1904), além de participar do Congresso Internacional de Botânica em Viena (1905), onde suas fotos e coleção de plantas secas renderam-lhe um segundo prêmio na exposição competitiva. Mas já em julho de 1906, Ule embarcava novamente ao Brasil, numa missão do sindicato do comércio da borracha de Leipzig, cujo objetivo era pesquisar sobre o potencial da borracha na Bahia, a partir da maniçoba. Vocês sabiam que a maniçoba produz látex capaz de fornecer borracha? Nem eu.

A partir de agosto de 1906, Ule passou por Serrinha, (Nova) Soure, Cachoeira, São Félix, Tamburi, Maracás, Caldeirão e Serra do Sincorá, na Chapada Diamantina, para retornar a Salvador em novembro.



Já em dezembro de 1906 Ule partiria de novo de Salvador, desta vez de trem, por Alagoinhas até Juazeiro, no Rio São Francisco. De Juazeiro tomou um vapor para ir a Remanso, para seguir em lombo de mula até São Raimundo Nonato, já no Piauí, e de lá à Serra Branca, hoje uma parte da Serra da Capivara. Depois de voltar a Remanso, tomou outro vapor até Xique-Xique e de lá subiu a Serra de Santo Inácio, antes de regressar a Salvador, em fins de janeiro de 1907.



Ule adoraria ter aproveitado a viagem para uma nova excursão à Amazônia, para a qual já teria conseguido patrocinadores, mas o contrato com o sindicato de Leipzig não o permitiu. A contragosto, voltou à Alemanha em março, e depois de uma briga judicial com o sindicato, que lhe rendeu uns bons trocados, Ule publicou seu paper sobre a maniçoba baiana e tratou de preparar aquela que seria sua mais longa e última expedição brasileira.

(a continuar)
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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Dom Nov 25 2018, 19:47

No dia 1º  de agosto de 1908 Ule zarpou de Hamburgo para aquela que seria sua última e mais longa expedição amazônica, com uma bolsa de pesquisas botânicas da Academia de Ciências de Berlim. Ele chegou em 1º de setembro em Manaus, depois de passar por Antuérpia e Belém, e no mesmo mês partiu em direção norte. Subiu o Rio Negro e o Rio Branco, passou por Caracaraí e Boa Vista, adentrou os Rios Uraricuera e Tacutu, voltou a Boa Vista para reabastecer, e subiu o Rio Surumu, passando pela barra do Cotingo até à Serra de Pracauá, onde chegou em fevereiro de 1909. De lá, ele subiu quatro vezes a Serra Mairari, próximo ao Monte Roraima, o ponto mais setentrional do Brasil, hoje município de Uiramutã/RR.
 


Entretanto, a malária e problemas musculares nas pernas o obrigaram a voltar a Manaus, onde chegou em 25 de abril de 1909. Mas já em 1º de junho do mesmo ano, ele partiria novamente à mesma região. Nesta segunda viagem, ele atravessaria a fronteira venezuelana, navegando pelo Rio Kukenan, e faria contato com índios Makuxi, Akawayo e Arikuna. Por felicidade, existem até fotos feitas por Ule dessa segunda viagem (v. tb Bonus track):



Ule passaria 7 semanas pesquisando no planalto (1900 metros de altitude), mas sua saúde agravou-se, obrigando-o a levantar acampamento em fevereiro de 1910, chegando em Manaus no dia 5 de abril. Em junho, ele seria convidado pela Associação Comercial manauara para liderar uma expedição que pesquisaria nos seringais do Alto Acre, a partir de novembro. Ele aceitou, é claro, mas resolveu aproveitar o período da seca (onde os rios baixos impossibilitariam a navegação) para pequenas excursões, a Cachoeira Grande e ao Rio Catrimani, um afluente da margem direita do Rio Branco. Lá a malária o atacou com tanta força, que ele teve que regressar a Manaus, onde chegou dia 11 de agosto. O médico mandou que ele se recuperasse num clima mais ameno, e Ule partiu ainda no final de agosto no vapor Bahia “para o Sul”:


Jornal do Commercio, Manaus, 1/9/1910

O sul era, na verdade, o leste, mais precisamente o Ceará. Mas Ule não foi pegar praia nem comer lagosta: acabou escalando a Serra do Baturité para pesquisar a flora de lá, antes de chegar de volta em Manaus, em 25 de novembro. Ainda a tempo para preparar a viagem ao Alto Acre, para onde zarpou em 23 de dezembro.



Ule chegou dia 10 de janeiro de 1911, portanto depois de mais de duas semanas embarcado, em Empresa, que era o nome de um seringal que acabou se tornando a capital estadual Rio Branco, conforma informa a imprensa local:


Folha do Acre, 15/1/1911

De Empresa, Ule seguiu viagem Acre acima, passando por Xapuri, até à fronteira boliviana (Cobija). De lá, subiu o Rio Acre em março de 1911, percorrendo a fronteira até o Seringal Paraguaçu, hoje município de Assis Brasil/AC, onde foi transportado de canoa (porque o rio já não era mais navegável) até o Seringal São Francisco, que tinha dois proprietários suíços (!), habitantes do lado peruano do rio. Lá, Ule trabalhou até novembro, quando partiu de volta a Manaus, onde só chegou no dia 21 de fevereiro de 1912.

Já em março, a imprensa manaura anunciava conferências com “projecções luminosas” de Ule sobre sua viagem ao Alto Acre, assim que ele retornasse da Alemanha, para onde partiria no domingo, dia 17:


Jornal do Commercio, Manaus, 14/3/1911

Mas antes da partida, Ule teria uma conferência no dia 15, sobre as duas viagens anteriores a Roraima. As outras conferências ele ficou a dever até hoje, pois nunca mais retornaria ao Brasil.

(A continuar)

Bonus track:

60 fotos das viagens de Ule à Roraima (se o link näo funcionar direto, é só escrever "Ule" no quadro SCHNELLSUCHE ALLE SAMMLUNGEN):

http://digital.smb.museum/eMuseumPlus?service=RedirectService&sp=Scollection&sp=SfieldValue&sp=0&sp=0&sp=3&sp=Slightbox_3x4&sp=0&sp=Sdetail&sp=0&sp=F


Última edição por Fabio Monteiro em Seg Nov 26 2018, 06:27, editado 2 vez(es)
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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Mitch Macgregord em Dom Nov 25 2018, 20:01

Muito nteressante e incrivel estudo parabéns aos amigos e obrigado, sempre aprendendo Smile

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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Dom Dez 02 2018, 17:42

No dia 17 de março de 1912 Ule zarpou de Manaus com o vapor Rhaetia, da Hamburg-Amerika-Linie, e chegou em Berlim no dia 10 de abril, encerrando assim uma expedição que duraria 3 anos e 8,5 meses. Ele fez um balanço detalhado de suas coletas: 2400 plantas diversas, 150 musgos, 200 fungos, algumas sementes (que pouco brotaram), uma coleção de plantas secas ou conservadas em álcool, alguns jardins-de-formigas (ou sejam, plantas cultivadas em formigueiros aéreos, uma paixão sua), mais de 600 galhas (excrescências ou tumores vegetais originários de ataques de fungos ou animais), uma série de insetos e cerca de 400 fotografias, que foram parar nos museus etnológicos de Berlim e São Petersburgo.

Mesmo marcado pela malária e problemas nas pernas pelas múltiplas picadas de insetos que sofreu, Ule recuperou-se rápido: depois de uma temporada na estação balneária de Bad Kissingen, na Baviera, ele começou a trabalhar no material que coletara, publicando pelo menos 18 novos papers, e dois anos mais tarde já estava a escalar os Alpes e sonhar com uma próxima expedição ao Brasil.

Mas seus planos foram abortados pela Primeira Guerra Mundial. Como a grande maioria dos alemães, Ule achava que a guerra não duraria muito e terminaria favorável a seu país. Ele tb esperava uma liberalização e modernização da Alemanha depois da guerra. Na época, Ule morava em Berlim-Steglitz e ia quase todos os dias a pé ao Museu Botânico em Dahlem, a trabalhar nas suas plantinhas. Assim era o Museu no início do século passado:



E hoje ele está assim:


I.Haas

Ule não faltava quase nunca às reuniões da sociedade botânica de Brandemburgo e da Deutsche Botanische Gesellschaft, participando de excursões científicas e dando tb muitas palestras sobre suas descobertas. Mas no verão de 1915, uma doença por ele subestimada fê-lo perder a consciência e paralisar uma série de órgãos. Levado em 9 de julho ao hospital de Lichterfelde, ele faleceria 6 dias mais tarde, aos 61 anos, sem ter recobrado plenamente os sentidos.
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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Dom Dez 09 2018, 17:33

Logo depois da morte de Ule, seu colega Hermann Harms publicou no boletim da Sociedade Botânica de Berlim/Brandemburgo um extenso necrológio, com retrato e biografia. Esse texto teria passado ainda despercebido, se não fosse sua tradução ao inglês, feita e revisada em 2016, e cujo link já foi postado por aqui.

No final desse necrológio, Harms faz uma impressionante lista:

- 10 novos gêneros propostos e descritos por Ule
- 8 novos gêneros botânicos e 2 zoológicos com seu nome, dados por outros cientistas
- ca. de 100 textos/papers de Ule
- e outros 50 de outros autores, baseados nas suas descobertas.

É preciso lembrar que esses números datam de 1915, estão portanto desatualizados por mais de um século. Uma consulta atual ao IPNI (International Plant Name Index) revelou nada menos do que 646 registros botânicos vinculados com ele:

https://www.ipni.org/ipni/advPlantNameSearch.do?find_includePublicationAuthors=on&find_includeBasionymAuthors=on&find_rankToReturn=all&output_format=normal&find_authorAbbrev=Ule

Hoje em dia, diversos botânicos em vários países pesquisam sobre suas descobertas, como Matthias Schultz e Hans-Helmut Poppendieck (Universidade de Hamburgo), Simon Mayo (Royal Botanic Gardens Kew, Grã-Bretanha), Jacquelyn A. Kallunki  (The New York Botanical Garden) e os brasileiros Tiago Arruda Pontes (Unesp em Rio Claro/SP) e Ivanilza M. de Andrade (UFPI em Parnaíba), para citar alguns.

........

Termino meu relato sobre a vida, obra e legado de Ernst Ule com uma pequena observação pessoal. Estes posts nunca teriam sido possíveis se não houvesse o acaso do BP que comprei e postei logo no início. Um BP que me mostrou o caminho para descobrir uma trajetória espantosa e improvável, ocorrida há mais de 100 anos. Uma revelação filatélica, portanto, por que sou muito grato.

Harms, o primeiro biógrafo, cita uma febre escarlatina como causa dos problemas psíquicos que Ule teve quando estudante, que o impediram de ingressar na universidade e o levaram ao manicômio por duas vezes, antes de sua partida ao Brasil. Um amigo psiquiatra infantil que consultei, entretanto, não acredita nessa versão. Ou seja, aqui ainda há o que pesquisar.

A carreira de Ule lembra um pouco o filme “Forrest Gump”: uma pessoa desabilitada que acaba por tornar-se protagonista da História. Chegou no Brasil Imperial, presenciou a abolição da escravatura, a queda do imperador, as Revoltas da Armada de 1891 e 1893, os primeiros governos civis brasileiros, a Guerra do Acre e o início da Primeira Guerra. Conheceu Fritz Müller e os naturalistas do Museu Nacional, brigou com Nilo Peçanha, percorreu o Brasil de norte a sul e de leste a oeste, visitou a Venezuela, Peru e Bolívia, conviveu meses a fio com caboclos e índios. Isso sem falar nas suas descobertas botânicas e zoológicas, que até hoje ocupam seus colegas contemporâneos, e de suas expedições científicas pela Europa. Nada mau pra quem foi até acusado de contrabando e biopirataria. Mas ainda há muito por descobrir sobre essa incrível personalidade.
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Re: A incrível história de Ernst Ule

Mensagem por Fabio Monteiro em Sex Dez 14 2018, 05:35

No BP do início deste tópico havia uma última linha abaixo à esquerda, ainda não transcrita. Hoje descobri que se trata do endereço de Ule em princípios de 1896, no Rio:

“7 Rua Chefe de Divisão Salgado 7.”

Segundo o Almanak Laemmert de 1907 existia uma rua com este nome na Glória, antiga Rua Senador Cassiano, que subia o Morro de Sta. Teresa:



Podemos até conhecer um ou outro vizinho de Ule, na época. De lá ao Museu Nacional o caminho já era bem mais curto do que a partir de Niterói, onde morara antes...
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Re: A incrível história de Ernst Ule

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