Por que existem tantas variedades de cores nos selos? TOMO II

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Por que existem tantas variedades de cores nos selos? TOMO II

Mensagem por RomeuNatale em Qua Maio 30 2018, 12:02

O Tomo 2 irei fazer como se fosse uma palestra, para facilitar o entendimento. Terá várias edições.

As cores só existem se estiverem presentes três componentes: um observador, um objeto e luz.

Apesar da cor ser apenas uma interpretação do nosso cérebro, conseguimos simulá-la para a nossa compreensão.

Quando temos várias tonalidades de cor, chamamos cada uma delas de “mancha”.

Nos selos brasileiros temos várias manchas, principalmente nos ordinários, o nosso foco. Na série Próceres essas manchas vão muito além do que existe nos catálogos. Em todos os valores temos ao menos duas manchas, como no valor de 10$000. O valor que mais tem variedades de cores é o de 100$, Wandenkolk. As variedades de cores valem para todos os selos monocromáticos brasileiros, ordinários, comemorativos ou blocos. De acordo com o tipo de impressão teremos a variação de cores. Mas as variações de cores são variedades ou não? Depende. Em alguns casos houve uma mudança de cor no selo, independente da sua estampa e do seu valor. Infelizmente não temos registro documental do porquê dessa ocorrência. Podemos apenas especular sobre o assunto. Porém, essa especulação tem alguma lógica. Muitos selos tiveram diversas partidas. E como as tintas eram preparadas manual e visualmente, podemos afirmar que nenhuma foi preparada exatamente igual a anterior. Além disso, temos as demais variáveis que “modificam” as cores. A principal delas é o papel.

O papel do papel nas cores

De acordo com a definição geral, “papel é uma folha fina, seca e flexível que serve para escrever, desenhar, imprimir, embrulhar, etc; preparada manual ou mecanicamente com substâncias fibrosas de origem vegetal reduzidas a uma pasta de celulose que é depois refinada e secada”. E dentre as suas propriedades, ele pode alterar substancialmente as cores. Como?

Dependendo do tipo de papel teremos uma nuance de cor diferente daquela esperada. E o que mais nos chama a atenção é que quando havia as provas de cores o papel usado para tais não era o que seria usado. Daí essa enorme confusão. Geralmente eram papéis do tipo cartão e de estrutura muito diferente daquele que seria usado. No caso da série que estamos estudando, o papel escolhido foi o tramado, um dos primeiros fabricados com fibras vegetais.

Nas três imagens abaixo, temos três tipos distintos de papéis utilizados para o valor de 50$, Cabral: liso, acetinado e tramado.

(Imagens sendo escaneadas)

Para entendermos como as cores reagem sobre o papel temos de entender como o papel é feito, qual é a sua estrutura químico-física.

De onde veio o papel?

No antigo Egito já existia o papel, papiro, que era feito a partir das fibras do caule da planta homônima. Porém, o papel da forma que o conhecemos nasceu na China, no segundo século da Era Comum, no ano 105. O chinês TS’AI LUN criou uma pasta a partir de várias fibras vegetais, além de roupas usadas e cal para criar o que conhecemos como papel hoje. Mas ninguém o conhecia até que no Século VIII, no ano 751, os árabes introduziram o papel na Europa, depois de derrotarem os chineses em uma das muitas guerras.
O papel utilizado para a confecção de selos nos séculos 19 e primeira metade do 20, eram basicamente o mesmo. Por serem muito porosos absorviam bem a tinta que recebiam. Isso não foi diferente para a série que estamos estudando. Apesar de não terem sido catalogados, foram ao menos três tipos de papéis utilizados nesta série. Ao analisarmos sob o microscópio, percebemos bem as diferenças entre os valores lançados.

Por absorverem bem a tinta, temos como saber exatamente qual era a cor original. No entanto, as tonalidades ficaram diferentes entre uma emissão e outra.

As diferenças tonais


Sempre que utilizamos diferentes tipos de papéis em impressões gráficas, corremos o risco de ter uma mudança tonal. Dependendo do papel, essa mudança pode ser acentuada ou mais amena. Nos selos ordinários até o início dos anos 1970, tivemos os tipos mais comuns de papéis, como o tramado, o comum, liso, espessso, acetinado, pergaminho, película (cebolinha), entre outros. Cada um desses papéis quando utilizados, alteravam a tonalidade das tintas empregadas na impressão dos selos. A partir de meados de 1970, os Correios começaram a empregar o papel couchê, que por ser bem liso é um papel branco neutro, se prestando bem a manter a fidelidade das cores.


Última edição por RomeuNatale em Ter Jun 05 2018, 10:19, editado 1 vez(es)
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Re: Por que existem tantas variedades de cores nos selos? TOMO II

Mensagem por RomeuNatale em Sex Jun 22 2018, 04:12

As chapas calcográficas

Um outro motivo é a chapa utilizada na impressão dos selos. Como sabemos, elas eram feitas em cobre ou aço, escavadas com o buril e demais ferramentas e dependia muito da forma que o artista fazia o seu trabalho ao esculpi-la. Como já vimos em outro artigo, linhas e pontos mais profundos, mais densidade de tinta e mais escura a tonalidade no momento da impressão e quanto mais raso o encavo, mais clara a tonalidade. Essa técnica é que mostra o efeito realístico criando a ilusão de uma fotografia, por exemplo.

Mas existia um problema, a chapa se desgastava com o tempo e os encavos ficavam mais rasos, contribuindo assim para uma mudança na tonalidade da impressão.

Um outro problema é que quando a chapa se quebrava ou sofresse alguma avaria, tinha de ser refeita e jamais poderia ser exatamente igual a original, causando uma mudança na tonalidade e até mesmo variações no desenho.

Preparação das tintas gráficas

Esse era mais um problema que fazia com que tivéssemos uma variação tonal nos selos quando impressos.

As tintas eram preparadas misturando-se duas ou mais cores diferentes para se obter uma terceira cor. Por exemplo, misturava-se a cor amarela com a cor azul para se obter o verde. O grande problema é que não existiam os métodos modernos para se conseguir a maior proximidade possível da tonalidade escolhida para determinada cor, tudo era feito de forma manual e visualmente. (Veja o artigo “Como enxergamos as cores” e os vídeos abaixo) Quem fazia essa preparação geralmente era o próprio impressor, operador da máquina impressora. E como cada indivíduo enxerga a cor de acordo com a interpretação do seu cérebro, havia a introdução de variadas tonalidades em uma mesma emissão filatélica. Os selos eram impressos de acordo com a demanda e a determinação do tempo que tal série iria perdurar. Com isso, várias impressões do mesmo valor eram executadas, o que fazia a quantidade de tonalidades virar uma Babel das cores.







Os tinteiros

Outro motivo de tamanha variedade de cores em selos de grande tiragem, era que o sistema de regulagem dos tinteiros, “peça” em que se depositava a tinta na impressora, era manual, o que deixava vulnerável a precisão da tonalidade escolhida originalmente. Inclusive isso permitia que em uma mesma folha houvesse selos com tonalidades diferentes. Abaixo temos um vídeo mostrando como funciona um tinteiro de máquina gráfica. Vale para todos os tipos de máquinas daquela época, calcográfica, offset, rotogravura e tipográfica.



Vimos que dependendo de quanto estão abertos ou fechados os registros (torneirinhas) do tinteiro da máquina, teremos uma variação tonal em partes da impressão. Quanto mais fechados, menos tinta e quanto mais abertos mais tinta é depositada na impressão. Isso explica inclusive as conhecidas “impressões borradas”. Isso acontece porque o tinteiros estão com os registros muito abertos.
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